MARIA, MÃE DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS DE JESUS CRISTO

02 de fevereiro de 2018 – Sexta-feira, Apresentação do Senhor

 

A festa da Apresentação do Senhor se refere à apresentação do menino Jesus no Templo de Jerusalém 40 dias após seu nascimento (cf. evangelho de hoje). Por isso a festa faz ainda parte do ciclo natalino: 02 de fevereiro são 40 dias após o Natal. Segundo um relato da peregrina Etheria (Egéria) no séc. IV, esta festa foi celebrada em Jerusalém com muitas luzes igual à Pascoa, porque representa a primeira visita do Senhor à sua casa, seu Templo. No ocidente, a festa era chamada Nossa Senhora das Candeias (do latim candela – vela), por causa das luzes (cf. Lc 2,32) e da benção das velas no início da liturgia de hoje. Outros nomes: Nossa Senhora da Candelária, da Luz, da Boa Viagem, da (Boa) Esperança, dos Navegantes (porque os navegantes se orientam pela luz das estrelas e Maria foi invocada como Stella Maris, estrela do mar)

Leitura: Ml 3,1-4.23-24

O livro de Ml só contém três capítulos. Foi escrito por um autor anônimo, mas o livro é chamado de “Malaquias”, porque este termo em hebraico maleaki significa “meu mensageiro/anjo” e foi tirado de 3,1 (o NT o cita e aplica a João Batista: Mc 1,2; Mt 11,10; At 13,24s). É o último livro dos 12 profetas menores e o último no Antigo Testamento da Bíblia cristã (que o interpreta em vista de João Batista; na Bíblia hebraica dos judeus, o último livro é 2Cr).

As profecias de Ageu e Zacarias sobre o templo reconstruído não se cumpriram como se esperava (cf. Ag 2,7-9; Zc 8,12s). As críticas e denúncias do culto e a defesa dos pobres (3,5, omitido pela nossa liturgia) indicam que o livro de Ml foi escrito por sacerdotes levitas (portadores de Dt 12-26; trazidos por Josias a Jerusalém em 2Rs 23,8s) em oposição aos sacerdotes de Sadoc (saduceus) atuando no templo.

Há dois grandes temas neste livro: 1. As faltas cultuais dos sacerdotes (1,6-2,9) e a falta dos fiéis em relação ao dízimo do templo (3,6-12), 2. O escândalo causado por matrimônios mistos e divórcios (2,10-16). Este conteúdo permite determinar a data deste livro profético: posterior ao restabelecimento do culto no templo reconstruído (515 a.C.) e anterior à proibição dos casamentos mistos na reforma de Neemias (445 a.C.).

O livro contém seis discursos ou oráculos, apresentados em forma de diálogo com o povo. No último capítulo, à pergunta do povo “onde está o Deus da justiça?” (2,17), o profeta responde anunciando um “dia de Javé” (Yhwh, pronunciado em português “Javé” ou traduzido por “Senhor”; cf. Am 5,18-20; Jl 2,1-2.10-11; Sf 1,14-18; Is 2,6-22) que purificará os sacerdotes (3,1-5), devorará os maus e assegurará o triunfo dos justos (3,13-21).

Eis que envio meu anjo, e ele há de preparar o caminho para mim; logo chegará ao seu templo o dominador, que tentais encontrar, e o anjo da aliança, que desejais. Ei-lo que vem, diz o Senhor dos exércitos; e quem poderá fazer-lhe frente, no dia de sua chegada? (v. 1).

À primeira vista, parecem ser duas personagens: o soberano que envia e o mensageiro (anjo) enviado. Obviamente, o dominador que chega a seu templo é o Senhor Deus, mas o “anjo que há de preparar o caminho” pode ser identificado com o “anjo da aliança”?

Neste v. 1 há quatro sujeitos: o anjo que prepara o caminho, o dominador que chega a seu templo, o anjo da aliança que entra junto, e o Senhor dos Exércitos que fala.

O Senhor (Javé) diz que enviará “meu anjo”, ou “meu mensageiro” (a mesma palavra em hebraico: maleaki), que preparará o caminho (cf. Is 40,3; Ex 23,20), este dia, para o “anjo (=mensageiro) da aliança, que desejais”.

Ao seu templo chegará o “dominador” (hebraico “adon”, senhor); este nome de Deus insiste em seu senhorio universal (Zc 4,14; cf. Mq 5,1). A chegada do “anjo/mensageiro da aliança” ao templo coincide com a de Javé, portanto, não é o precursor que chega antes para preparar o caminho. “Mensageiro da aliança” é aquele quem faz as negociações, mas nunca foi dado a Moisés semelhante título. Trata-se de uma designação misteriosa do próprio Javé com referência implícita ao anjo do Êxodo (Ex 3,2; 23,20-23; cf. Ex 14,19; Gn 16,7-13; 21,17; 22,11, 31,11; Jz 2,1; Mt 1,20; 2,13.19; 28;2; At 12,7). Mt 11,10 convida para interpretá-lo em relação a Cristo.

O título “Senhor (Javé) dos exércitos” (1,4.6.8-10 etc.) não só se refere aos exércitos de Israel em ordem de batalha (Jó 10,17; 1Sm 17,45s; Ex 12,51), mas também às constelações das estrelas (Gn 2,1; Is 40,26) e finalmente a todos os elementos e poderes do universo. Este título apareceu pela primeira vez ligado ao ritual da arca da aliança em Silo e entrou com ela em Jerusalém (1Sm 1,3.11; 4,4; 2Sm 6,18; 7,8.27 etc.). Foi retomado pelos grandes profetas (salvo Ezequiel), pelos profetas do pós-exílio (como Malaquias; principalmente Zacarias) e nos Salmos (cf. Is 6,3.5; Sl 24,10; 46,8).

O “dominador” e o “anjo a aliança” (v. 1) são a mesma pessoa ou duas pessoas distintas?

A Bíblia do Peregrino (p. 2311) comenta: Primeiro vem o arauto a prepara o caminho (Is 40,3; 57,14; 62,10); depois, virá em pessoa o procurado ou desejado, que pode ser Deus mesmo ou o Messias. Deus mesmo: conforme o Segundo Isaías, Ez 43; Ag 2,7-9 e Ml 3,5. O messias: interpretando textos como Is 42,6; 49,8; 55,3, e conforme Hb 9,15 o lê.

Nesta ambivalência podemos reconhecer traços de Jesus e de João Batista. Enquanto o anjo/mensageiro precursor “prepara o caminho para” o Senhor (v. 1), a chegada do dominador (Senhor) coincide com a do anjo/mensageiro da aliança (cf. vv. 1-2a). Pode-se entender João como precursor e Jesus como dominador e mensageiro da nova aliança, o messias “desejado” (cf. Mt 11,10).

E quem poderá resistir-lhe, quando ele aparecer? Ele é como o fogo da forja e como a barrela dos lavadeiros; e estará a postos, como para fazer derreter e purificar a prata: assim ele purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e como prata, e eles poderão assim fazer oferendas justas ao Senhor. Será então aceitável ao Senhor a oblação de Judá e de Jerusalém, como nos primeiros tempos e nos anos antigos (vv. 2-4).

O precursor João Batista anunciará o julgamento na ocasião da vinda próxima do Senhor (“no dia da sua chegada”) que será como fogo (Mt 3,7-12). Jesus também falará do fogo que ele mesmo veio trazer (Lc 12,49).

O julgamento no dia do Senhor compara-se ao fogo da fundição e purificação dos metais “ouro e prata” (vv. 2-3; cf. Is 1,22.25; Jr 6,28-30; Ez 22,17-22). Assim o Senhor “purificará os filhos de Levi” (os sacerdotes do templo; v. 3) e “será então aceitável ao Senhor a oblação de Judá e Jerusalém, como nos primeiros tempos” (v. 4). Esta era messiânica verá também o restabelecimento moral e a renovação social em favor dos pobres e oprimidos (cf. v. 5) e culminará no sacrifício perfeito a Deus, em todas as nações “do nascer ao pôr do sol” (1,11).

Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o dia do Senhor, dia grande e terrível; o coração dos pais há de voltar-se para os filhos, e o coração dos filhos para seus pais, para que eu não intervenha, ferindo de maldição a vossa terra (vv. 23-24).

Os vv. 23-24 são um acréscimo posterior identificando a vinda deste “mensageiro” (v. 1) com a volta do profeta Elias que foi arrebatado ao céu (2Rs 2,11-13; cf. Eclo 48,9-10).

Assim no final de Ml (final dos livros proféticos) se reúnem Moisés (v. 22, omitido pela leitura de hoje) e Elias (vv. 23-24), a lei e a profecia em bom concerto; até que se reúnem no monte da transfiguração como testemunhas que confirmam o Messias (Mc 9,2-13). A tarefa de Moisés é proclamar a lei; mas converter, “voltar” o coração, compete ao profeta. A lei é uma lembrança, a profecia uma esperança. Moises não voltará, Elias sim.

A especulação sobre a volta de Elias se alimenta do relato sobre seu arrebatamento ao céu (2Rs 2,11-13) e desta nota de Malaquias. Ben Sirac recolhe a lenda como coisa aceita (Eclo 48,9s) e os evangelhos explicam seu sentido (Mt 11,15; 17,10). A tarefa de Elias será reconciliar as gerações (filhos, pais) divididas (cf. Lc 1,17), para que a terra não seja destruída. O final de Malaquias se destaca do seu contexto com valor permanente.

O NT (Novo Testamento) declara que Elias veio na pessoa de João Batista (cf. Lc 1,17.76; Mt 11,14; 17,10.13; Mc 9,11-13). Em hebraico e grego, “anjo” e “mensageiro” são a mesma palavra; por isso, em algumas imagens (ícones) João Batista é representado com asas de anjo.

 

Evangelho: Lc 2,22-40 (ou 22-32)

O evangelho de Lucas começa e termina no Templo de Jerusalém (1,8; 24,53). O templo era o centro religioso, político e econômico do judaísmo. Para Lc, Jerusalém é o centro predestinado da obra da salvação (cf. 9,31.51.53; 13,22-23; 17,11; 18,31; 19,11; 24,47-49.52), é o lugar da “libertação” (v. 38) pascal e o ponto de partida da missão cristã (cf. At 1,8). Dentro da história da infância de Jesus, ouvimos hoje da primeira visita de Jesus no templo, “a casa do meu pai” (v. 49), como ele vai dizer na sua segunda visita aos 12 anos.

Lc escreve para gregos e romanos que não conhecem a Terra Santa; ele não polemiza contra os judeus, mas descreve com simpatia seus costumes. Simeão e Ana representam a boa acolhida por parte dos judeus piedosos. Em Mt, porém, a família sagrada é perseguida na Judeia e tem que fugir de Herodes (Mt 2). A diferença explica-se pelo fato de que Mt escreve para judeu-cristãos que sofrem ainda hostilidades por parte dos fariseus (cf. Mt 23).

Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor. Conforme está escrito na Lei do Senhor: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor” (vv. 22-23).

O decreto de César Augusto causou o deslocamento de José e Maria para Belém (vv.1-7), agora é a fidelidade dos pais à lei judaica (vv. 22.24.27) que os motiva a ir a Jerusalém para a “apresentação do Senhor”, exatamente 40 dias depois do seu nascimento. Na verdade, a “apresentação” do “primogênito” no templo não era requerida por lei, mas possível (cf. Nm 18,15) e devia aparecer convenientes às pessoas piedosas (cf. 1Sm 1,24-28). O que a lei prescrevia, era um sacrifício para “resgatar o primogênito” em agradecimento a libertação da escravidão quando Deus tinha matado todos os primogênitos dos egípcios, mas poupado os primogênitos dos hebreus (cf. Ex 13,2.12-15). Os primogênitos dos humanos e dos animais pertenciam a Deus (cf. Gn 22; Ex 22,28-29; 34,19-20; Nm 3,46-47; em Nm 18,15-16 estipula-se o pagamento de 50 gramas de prata ao sacerdote).

O menino Jesus já foi circuncidado no oitavo dia (v. 21; Gn 17,12; 21,4), provavelmente na sinagoga de Belém, e Maria era impedida de ir ao santuário em Jerusalém por mais 33 dias, porque a lei judaica considerava o sangue da menstruação e do parto uma coisa “impura” (Lv 15,25-32; Mc 5,25-34). Em quase todas as sociedades primitivas, a regra da mulher constitui a impureza temida despertando emoções provocadas por toda manifestação da vida sexual como a angustia sentida diante do sangue que corre sem que se tenha querido. Mas na Lei de Moisés obviamente consta uma prescrição machista, porque se estipulou ainda o dobro do tempo de purificação em caso do nascimento de uma menina (cf. Lv 12,1-5). Para o menino, ao total são 40 dias depois do nascimento; e este período fixou a data da festa da “Apresentação do Senhor” (também chamada “Nossa Senhora das Candeias”, ou “Nossa Senhora da Luz”, cf. v. 32) no dia 02 de fevereiro, 40 dias depois do Natal (no Candomblé é festa de Yemanjá, deusa-orixá do mar.)

Foram também oferecer o sacrifício – um par de rolas ou dois pombinhos – como está ordenado na Lei do Senhor (v. 24).

O sacrifício exigido pela purificação da mulher era um cordeiro, “se ela não tem meio para comprar um cordeiro, pegue um par de rolas os dois pombinhos” (Lv 12,8). O fato de José e Maria não terem condições de oferecer um cordeiro demonstra de maneira mais clara a situação de pobreza em que Jesus nasceu (cf. v. 7; cf. 2Cor 8,9).

Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor. Movido pelo Espírito, Simeão veio ao Templo (vv. 25-27a).

O episódio de Simeão (vv. 25-35) e Ana (vv. 36-40) é um encontro do velho (AT) com o novo (NT). Simeão era “justo e piedoso, e esperava a consolação de Israel”, ou seja, a salvação do povo (v. 25; cf. Is 40,1; 51,12; 61,2). “O Espírito Santo estava com ele”, quer dizer que era profeta (v. 25; cf. Nm 11,17.25.29; 2Rs. 2,15; Is 11,12; 42,1; 61,1; Ez 11,5; Lc 1,41; 3,22; 4,1.18; At 2,4 …). Sua esperança apoia-se em muitas profecias antigas e na revelação pessoal de “que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor”, lit.: antes de ver o “Cristo Senhor” (já v. 11; cf. 1Sm 24,7; Sl 84,10; 89,39.52; Lm 4,20). Outra vez, Lc menciona o Espírito que move Simeão na hora exata para encontrar o messias (Cristo).

Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: ”Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; porque meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel” (vv. 27b-32).

A promessa se cumpre: Simeão não só vê a salvação/consolação, mas toma o salvador nos braços (v. 28). Seu oráculo de louvor (vv. 29-32) corresponde ao salmo de Zacarias sobre João (1,67-79), mas em vez de se inspirar nos Salmos, tira seus termos da segunda parte do livro de Isaias (cf. Is 40,5; 42,6; 49,6; 52,10).

Proclamando a salvação concedida em Jesus, Simeão se sente como escravo (“servo”) livre para “partir” (cf. Ex 21,26; Dt 15,13), certo de um futuro esplêndido (v. 32) que começa “agora” (v. 29; cf. o significado de “hoje” em Lc 2,11; 4,19; 5,26; 19,5.9; 23,43). Por isso Simeão pode morrer tranquilo. Como também o hino de Maria (Magnificat) e o de Zacarias (Benedictus), este louvor de Simeão (em latim Nunc dimittis) entrou na Liturgia das horas, antes de dormir (o sono como imagem da morte).

Em Belém, o anjo já anunciou aos pastores que Jesus é o messias salvador, alegria “para todo o povo” (vv. 10s), mas agora anuncia-se pela primeira vez que é a salvação também dos pagãos (vv. 31-32; cf. 24,47: “a todas as nações, a começar por Jerusalém”; cf. At 1,8). Outra vez proclama-se o conjunto de paz, salvação, luz e glória (cf. vv. 9.11.14).

O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele. Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma” (vv. 33-35).

Simeão dá a benção (provavelmente a sacerdotal; cf. Nm 6,22-25; 1Sm 2,20) ao casal e anuncia outro oráculo somente a Maria, porque José já terá morrido antes da sua realização (cf. Mc 6,3 não o menciona mais). A missão de Jesus de ser luz do mundo pagão será acompanhada de hostilidade e perseguição por parte do seu povo (cf. vv. 34-35; 4,24-30; Mt 2). O pano de fundo é a profecia de Ml 3,1-4 (leitura de hoje) na qual a entrada do Senhor no santuário é uma grande purificação. A profecia de Simeão usa imagens bélicas: o sinal do estandarte (Sl 74,4.9), o tomar partido (cf. 12,51), o cair e levantar-se (Is 8,14; Sl 20,9), a espada como emblema (Ex 33,2; Am 9,4).

Jesus será um “sinal” que não se impõe, mas será acolhido livremente na fé. Mas uma parte importante de Israel o recusará (cf. At 28,26-28; cf. Is 8,14,16; Lc 20,17-18). Jesus denunciará muitas vezes a incredulidade no pensamento dos seus ouvintes (cf. 5,22; 6,8; 9,47; 24,38). Sua missão revela os segredos (pensamentos) dos corações (cf. Mc 7,6-8; Lc 16,15; At 1,24; 15,8).

“Uma espada te transpassará a alma” (v. 35); como em 1,46 e muitos outros textos a alma representa a pessoa, mas aqui obviamente não o corpo, mas a parte psíquica, emocional. Inspirada em Ez 14,17, esta ameaça deve ser interpretada segundo seu contexto: Israel vai se dividir diante de Jesus, e Maria como verdadeira Filha de Sião será dilacerada por esse drama. Pode-se ver aqui um primeiro anúncio da paixão (cf. Jo 19,25; Zc 12,10).

Havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada; quando jovem, tinha sido casada e vivera sete anos com o marido. Depois ficara viúva, e agora já estava com oitenta e quatro anos. Não saía do Templo, dia e noite servindo a Deus com jejuns e orações (vv. 36-37).

Lc tem o bom costume de não só falar dos homens, mas também das mulheres (cf. seus textos próprios sobre a viúva em Naim em 7,11-17; a pecadora e as seguidoras de Jesus em 7,36-8,3; Marta e Maria em 10,38-41; a cura da mulher encurvada em 13,10-17; a mulher que procura a moeda em 15,8-10; a viúva contra o juiz em 18,1-8; as mulheres de Jerusalém em 23,27-31 e mais outras no túmulo vazio em 24,10s; cf. At 1,14; 9,36-42; 12,12s; 16,14-18; 18,2s.18.26 etc.). Lc destaca o papel de Maria e Isabel na infância de Jesus (cap. 1-2) e parece ter informações privilegiadas de Maria (cf. 2,19.51). Aqui, segundo seu costume, Lc põe uma mulher ao lado do homem: a Simeão, se junta uma viúva, Ana.

Ana é de uma tribo setentrional (Aser). É viúva e anciã, como Judite (Jt 16,22-23), “profetisa” como Miriam (Ex 15,20), Débora (Jz 4-5) ou Hilda (2Rs 22,14). “Não saía do templo” (v. 37, ideal de perfeito israelita, cf. Sl 23,6; 26,8; 27,4; 84,5.11), “dia e noite servindo a Deus com jejuns e orações” (cf. 18,7; At 20,31; 26,7). Lc gosta de mencionar a constância no serviço e na oração (cf. a viúva em 18,1-8) e a atribui aqui a Ana, contrariamente ao costume judaico que não admitia as mulheres à noite no recinto do templo (sobre o direito da mulher ouvindo a Palavra, cf. o episódio de Marta e Maria em 10,38-41). O nome Ana (hebraico Hanna) significa misericórdia, compaixão, graça (cf. João, em hebraico Yohannan, Deus é misericórdia). O canto da Ana, mãe de Samuel (2Sm 2), inspirou Lc para o louvor de Maria (1,46-55; Magnificat).

Ana chegou nesse momento e pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém (v. 38).

Segundo Jl 3,2, nos últimos tempos, profetizarão homens e mulheres, jovens e anciãos (cf. At 2,17-18). Ana se une a Simeão e louvando a Deus dispõe-se a “falar do menino a todos que esperavam a libertação de Jerusalém” (v. 38). Esta libertação (lit. resgate, termo da lei dos primogênitos, cf. v. 23) do povo eleito (cf. 1,68; 24,21) interessava em primeiro lugar a capital Jerusalém (cf. Is 40,2; 52,9) ocupada por tropas romanas.

Depois de cumprirem tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade (v. 39).

Em Lc não há notícias sobre uma fuga ou uma estadia no Egito relatadas em Mt 2. Mt e Lc escrevem na mesma época (cerca de 80 d.C.), mas em lugares diferentes sem conhecer um a outro. Ambos usam duas fontes: o evangelho de Mc (escrito em 70 d.C.) e uma fonte catequética que continha palavras de Jesus (bem-aventuranças, parábolas etc.; esta fonte, chamada Q, se perdeu na história e só pode ser reconstruída a partir de textos comuns em Mt e Lc). Mas fora das duas fontes, nas narrativas da infância (e das aparições do ressuscitado), Mt e Lc concordam apenas em poucos pontos, porém essenciais: Jesus foi concebido do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria em Belém e foi criado em Nazaré; José era pai adotivo e descendente de Davi. Nos detalhes, porém, há bastante diferenças entre Mt e Lc:

Em Lc, Maria e José já moravam em Nazaré desde o início e só se deslocaram a Belém por causa do recenseamento. Depois do nascimento do menino em Belém e a apresentação no Templo de Jerusalém, voltam para casa em Nazaré (v. 39). Em Mt, porém, a história é diferente: Desde o início, Maria e José já moravam em Belém numa casa onde Jesus nasceu (Mt 2,11), depois fogem para Egito (Mt 2,13s) e voltam para Israel só depois da morte de Herodes; e por causa do filho mais cruel de Herodes (Arquelau) reinar em Jerusalém, a Sagrada Família não vai mais para sua casa em Belém (6 km de Jerusalém), mas migra para a Nazaré, povoado distante na Galileia (Mt 2,19-23), sob jurisdição de outro filho de Herodes (Antipas).

Não é fácil conciliar os dois relatos. Ou Lc omitiu a fuga ao Egito (por qual motivo? Ou nem sabia dela?), ou Mt inventou-a. A maioria dos exegetas modernos considera o relato da visita dos magos e da fuga ao Egito uma ideia teológica de Mt. “Ao contrário da anunciação, a adoração dos magos não toca em nenhum aspecto essencial da fé. Poderia ser uma criação de Mt, inspirada por uma ideia teológica; em tal caso, nada cairia por terra” (Daniélou, citado por Bento XVI, Infância de Jesus, p. 99).

Assim, Mt poderia ter seguido uma tradição judaica de narrativas (midrash) que inventavam ou ampliavam relatos sobre Moisés e outros personagens. O evangelista não quer dar um testemunho falso da história, mas revelar seu sentido espiritual: através desta introdução em forma de narração, Mt ajuda e motiva seus leitores judeu-cristãos a lerem e entenderem que Jesus não é só o Messias de Israel (cf. genealogia em Mt 1,1-17), mas também um novo Moisés sobrevivendo à matança dos recém-nascidos ordenada por um rei (Faraó, Herodes) e “saindo do Egito”, dando depois uma “Lei” na “montanha” (Mt 5-7: o sermão da montanha é uma nova interpretação libertadora da  Lei de Moisés).

O evangelista Lc, porém, segue sua pesquisa histórica para convencer seus leitores greco-romanos. No seu prólogo, fala de “testemunhas oculares” e “acurada investigação de tudo desde o princípio” (1,1-4). Portanto, a narração de Lc que fala da volta da família sagrada a Nazaré, em vez de fugir ao Egito, é bem mais provável.

Ainda chama atenção o fato de Lc omitir outra viagem de Jesus no exterior, ao copiar o evangelho mais velho de Mc (em Lc faltam Mc 6,45-8,25). Também nos Atos dos Apóstolos, Lc não mencionou nada da evangelização da Alexandria no Egito (cf. At 18,24), outra cidade importante no cristianismo primitivo, além de Jerusalém, Antioquia, Éfeso.

O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele (v. 40).

A breve notícia que conclui o evangelho de hoje é estritamente paralela à de 1,80 sobre João Batista (sem se retirar ao deserto) e será repetida em v. 52 (cf. o crescimento do menino Samuel em 1Sm 2,21.26; 3,19). No ambiente greco-romano que valoriza a filosofia (a palavra grega significa: amor à sabedoria; cf. At 17), Lc se detém na qualidade de “sabedoria” que inclui conhecimento, juízo, sensatez. Jesus não a recebe de uma vez (como poderia sugerir Is 11,2), mas por maturação lenta, por aprendizagem e educação. Na sua pregação, Jesus adotará o estilo sapiencial com mais frequência que o profético (cf. parábolas). Lc quer frisar, que ela é um bem próprio de Jesus (v. 52; 11,31; 21,15). Sobre João estava a “mão do Senhor” (1,66), como sobre os profetas. Sobre Jesus está a “graça (favor)” por excelência (cf. 1,28), e em 3,22; 4,1.18 etc., o Espírito Santo.

O site da CNBB comenta a respeito de Simeão e Ana:

Quem espera no Senhor jamais será decepcionado, pois ele sempre cumpre as suas promessas. Deus prometeu durante todo o Antigo Testamento a vinda do Messias e muitos em Israel acreditaram nessa promessa, vivendo na esperança da sua chegada. O canto de Simeão nos mostra esta esperança e a alegria da realização da promessa, assim como os elementos principais da missão messiânica de Jesus, que será um sinal de contradição para o povo, pois será libertação para o pobre e condenação para aqueles que não acreditam nele e na sua palavra, de modo que não se convertem.

Toda pessoa que faz da sua vida um serviço a Deus vive a alegria do encontro com ele. Com Ana não foi diferente. Depois de oitenta e quatro anos vividos na busca da realização da vontade de Deus, ela tem a alegria do encontro pessoal com ele. Mas Ana não fica com essa alegria só para ela; sai anunciando a todos que aquele menino é a resposta do próprio Deus a todos os que esperam a verdadeira libertação. E este anúncio é acompanhado do reconhecimento do amor de Deus, que é fiel às suas promessas, através do louvor a ele.

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