"Sal da Terra e Luz do Mundo”, Mt 5,13-14

05 de Janeiro de 2018 – Segunda-feira, 5ª semana

Leitura: 1Rs 8,1-7.9-13

Ouvimos hoje e amanhã trechos da dedicação do templo que ocupa espaço amplo e lugar importante no livro. Com a construção do templo, Javé Deus de Israel, deixa de ser o Deus que caminha com seu povo (cf. a tenda no deserto) para ser um Deus fixo na cidade, numa religião que legitima o poder político em Jerusalém e a coleta de tributos.

Já os caps. anteriores mostram a importância deste templo para a religião de Israel (e para os redatores no tempo de Josias e no pós-exílio): os preparativos para obra, a própria construção do templo e todo interior do santuário (5,17-7,51; as medidas descritas, porém, são as do templo pós-exílico, cf. Ez 40-42; 2Cr 3).

Salomão construiu o alicerce este templo por volta de 960 a.C. (no quarto ano do seu governo, cf. 6,1.37) e o concluiu em sete anos (6,37). Na reforma deuteronomista do rei Josias (23,4-20; Dt 12,2-12) em 622, o culto dos sacrifícios foi concentrado no templo de Jerusalém e outros santuários foram demolidos.

O templo de Jerusalém foi destruído pelo exército babilônico em 586 (25,8-17; Jr 52,12s) e reconstruído (com menos esplendor) depois do exílio em 520-515 (segundo templo, cf. Esd 6,15; Ag 2,15). Herodes começou uma reforma em grande estilo iniciando em 19 a.C. (e demorando 46 anos, cf. Jo 2,20 Jesus ensinando neste templo). Em 70 d.C., as legiões romanas incendiaram o templo (cf. Mc 13p) e instituíram na área um culto pagão (cf. Mt 24,15). Os imperadores (a partir de 313, cristãos) não tinham interesse em reconstruir o templo judaico. Em 620 os árabes conquistaram Jerusalém e ergueram, no lugar do templo, um santuário muçulmano que é o atual octogonal com a cúpula dourada, chamado santuário da rocha, não é mesquita (esta, chamada Al-Aksa, encontra-se ao lado), mas um memorial lembrando o sacrifício de Abraão (cf. Gn 22).

A exposição do cap. 8 segue um esquema simples: convocação e cerimônias (vv. 1-13; leitura de hoje), bênção da assembleia, ação de graças e súplica (vv. 14-27); súplica em sete casos (vv. 28-53), bênção e exortação (vv. 54-61); cerimônias e despedida (vv. 62-66).

Salomão convocou, junto de si em Jerusalém, todos os anciãos de Israel, todos os chefes das tribos e príncipes das famílias dos filhos de Israel, a fim de transferir da cidade de Sião, que é Jerusalém, a arca da aliança do Senhor (v. 1).

Os três grupos representam o povo enquanto distinto da corte: senado popular, divisão tradicional das tribos e ordem natural das famílias. Eles são testemunhas de um traslado digno da arca da aliança que é símbolo da unidade das tribos de Israel. Por isso, a cerimônia tem caráter nacional como já teve o traslado da arca a Jerusalém por Davi (cf. 2Sm 6; cf. leitura de terça-feira passada).

Todo o Israel reuniu-se em torno de Salomão, no mês de Etanim, ou seja, no sétimo mês, durante a festa (v. 2).

O “mês de Etanim”, i. é. dos rios permanentes, é um mês do calendário cananeu, que correspondia ao sétimo mês do calendário israelita posterior como o indica uma glosa. Era o mês em que ainda corriam alguns cursos d’água no fim de um verão em que nunca chove. A data marca o final de todas as tarefas agrícolas e a preparação para o novo ciclo vegetal, quando vêm as chuvas do outono e a terra se amacia para receber as sementes (Sl 65). Esta festa da dedicação do templo corresponde à de outono, a festa dos tabernáculos (festa das tendas, cf. v. 63; Ex 23,16; 34,22; Lv 23,34; Dt 16,13; Ez 45,24).

A Nova Bíblia Pastoral (p. 327) comenta: A festa do traslado da arca tem por finalidade atrair os camponeses a Jerusalém (cf. 2Sm 6). Por isso, é celebrada durante a semana das tendas, no sétimo mês (setembro/outubro, cf. Lv 23,33-43), justamente no final da colheita, período de muitas ofertas.

Vieram todos os anciãos de Israel, e os sacerdotes tomaram a arca e carregaram-na junto com a tenda da reunião, como também todos os objetos sagrados que nela estavam; quem os carregava eram os sacerdotes e os levitas (v. 3-4).

O hebraico acrescenta no começo: “Vieram todos os anciãos de Israel”, e no fim: “quem os carregava eram os sacerdotes e os levitas”, omitido por uma parte do texto grego. Esta observação, provavelmente devida a um autor sacerdotal, pode indicar que nenhum profano se aproximou da arca (cf. 2Sm 6,3-7; cf. Nm 4,5.15.20; Ex 25,15). Supondo que a tenda montada por Davi para abrigar a arca (2Sm 7,8; 1Rs 1,39) fosse a venerável e elaboradíssima tenda que acompanhou o povo pelo deserto e desaparecera com a entrada em Canaã, o autor chama-a de “tenda da reunião” (cf. Ex 33,7-11).

O rei Salomão e toda a comunidade de Israel, reunida em torno dele, imolavam diante da arca ovelhas e bois em tal quantidade, que não se podia contar nem calcular (v. 5).

Os sacrifícios de Salomão superam os do transporte da arca ao monte Sião por Davi, que sacrificava um boi e um bezerro cevado a cada seis passos (2Sm 6,13). Salomão, não o sumo sacerdote, é o centro (a comunidade “reunida em torno dele”) e protagonista da cerimônia (como o sacerdote-rei Melquisedec em Gn 14,18-20; cf. Sl 110).

E os sacerdotes conduziram a arca da aliança do Senhor ao seu lugar, no santuário do templo, ao Santo dos Santos, debaixo das asas dos querubins, pois os querubins estendiam suas asas sobre o lugar da arca, cobrindo a arca e seus varais por cima. Dentro da arca só havia as duas tábuas de pedra, que Moisés ali tinha deposto no monte Horeb, quando o Senhor concluiu a aliança com os filhos de Israel, logo que saíram da terra do Egito (vv. 6-7.9).

Chegando ao lugar santíssimo, “Santo dos Santos” (cf. 6,15-22), a arca termina finalmente sua peregrinação, iniciada no deserto como santuário móvel, continuada no tempo dos juízes, Saul e Davi. Parece que doravante não saía mais para a guerra como em outros tempos (cf. Jz 6; 1Sm 4; 2Sm 11,11).

O autor nos diz que “dentro da arca só havia as duas tábuas de pedra”, ou seja, as “tábuas da aliança” (Dt 9,9.11.15) dos dez mandamentos (cf. Ex 25,16; 31,18; 32,15; 34,29); a arca não era um depósito de lembranças devotas, como diziam outros (Ex 16,33: uma vasilha com maná; Nm 17,10: a vara de Aarão). O autor fala dos dois anjos como “querubins” (cf. 6,23-28; Ex 25,18-22), mas não menciona a tampa da presença divina (propiciatório; cf. Ex 25,17.21; Lv 16,15; 1Cr 28,11); e esse silencio é mais chamativo na presença da nota detalhada sobre as varais (v. 8; omitido na leitura de hoje), ao que parece, acrescentada por um leitor escrupuloso de Ex 25. Ao destacar a relação da arca com a “aliança” e lhe destinar o lugar mais sagrado do templo, este fica ligado à história de Israel; não é simplesmente um templo cósmico como eram os dos cananeus. Além disso, o “monte Horeb” (= Sinai) fica ligado espiritualmente ao monte Sião (colina do templo).

Ora, quando os sacerdotes deixaram o santuário, uma nuvem encheu o templo do Senhor, de modo que os sacerdotes não puderam continuar as funções porque a glória do Senhor tinha enchido o templo do Senhor (vv. 10-11).

 A “nuvem” já havia acompanhado Israel no tempo de deserto e significa a presença do Senhor (cf. Ex 13,21s; 19,16; 33,9s; 40,34-38; Ap 15,8), é a manifestação sensível da presença de Javé, que toma posse de seu santuário. A “glória do Senhor” se manifesta nela (cf. Ex 24,15-18; 40,34s).

A Bíblia do Peregrino (p. 626) comenta: A nuvem é um tema teológico de singular êxito no pensamento de Israel através dos séculos. Representa a presença velada do Senhor, ou seja, é testemunho de presença que impede de ver uma imagem. No templo, o incenso podia criar essa nuvem litúrgica. A glória do Senhor tem muitas vezes o aspecto do esplendor, é luminosa como o sol; então é livre e mostra sua liberdade. Quando essa glória entra numa morada para habitar, se encobre e se recusa. É em termos simbólicos, algo assim como “a obscuridade da fé”.

Então Salomão disse: “O Senhor disse que habitaria numa nuvem, e eu edifiquei uma casa para tua morada, um templo onde vivas para sempre” (vv. 12-13).

Este curto poema (cf. Sl 18,12; 132,14; 2Sm 7,13; 1Tm 6,16) conclui esta parte do ritual. Pode ser autêntico; encontra-se na antiga versão grega depois de 8,53 e com um estíquio suplementar: “Javé estabeleceu o sol nos céus, mas decidiu…” Javé, o Senhor do universo e envolto em mistério, tem agora uma morada sobre a terra no meio de seu povo Israel. É toda uma “teologia do templo”. Esta forma longa deve ser mais original. Era conservada, diz a versão grega, no livro do canto (ou de lasar).

 

Evangelho: Mc 6,53-56

Depois da multiplicação dos pães e o caminhar sobre as águas (vv. 35-52, lidos no Tempo de Natal, terça e quarta-feira da semana da Epifania), Mc apresenta um novo sumário das curas operadas por Jesus (cf. 3,7-12 e o comentário da 5ª feira da 2ª semana do Tempo comum).

Tendo Jesus e seus discípulos acabado de atravessar o mar da Galileia, chegaram a Genesaré e amarraram a barca (v. 53).

“Genesaré” é uma planície fértil ao sudoeste de Cafarnaum que deu nome ao “mar da Galileia” que é o “lago de Genesaré” (em Jo 6,1; 21,1, é chamado o “mar de Tiberíades”, segundo outra cidade na beira do lago). Em v. 45 os discípulos queriam desembarcar em Betsaida, talvez que o vento contrário (v. 48) os tenha desviado, mas a geografia neste evangelho nem sempre é exata.

Logo que desceram da barca, as pessoas imediatamente reconheceram Jesus. Percorrendo toda aquela região, levavam os doentes deitados em suas camas para o lugar onde ouviam falar que Jesus estava. E, nos povoados, cidades e campos onde chegavam, colocavam os doentes nas praças e pediam-lhe para tocar, ao menos, a barra de sua veste. E todos quantos o tocavam ficavam curados (vv. 54-56).

Há dois detalhes novos neste sumário: as pessoas da região trouxeram os doentes “deitados em suas camas” (v. 55; cf. 1,32; 2,3s) e pediam-lhe para tocar (cf. 3,10; 5,28), ao menos, “a barra de sua veste” (ou: “a orla do manto, franjas da sua veste”). Estes detalhes da veste caracterizam Jesus como fiel observante da lei (cf. Nm 15,38-39; Dt 22,12). O manto de um profeta pode ser sinal da sua profissão (cf. 2Rs 1,8; 2,13; Mc 1,6). “E todos quantos o tocavam ficavam curados” (v. 56); pelos relatos de outras curas, subentende-se que todos estes tinham certa fé (cf. 2,5; 5,36; 6,5s; 9,23; 10,52).

É doutrina católica que os milagres de Jesus continuam nos sacramentos nos quais não só ouvimos o mestre, mas tocamos nele.

O site da CNBB comenta: O cristão de verdade não pode ficar parado. Ele nunca pode dizer que cumpriu a sua missão, pois ele deve estar sempre a caminho, sempre se lançando rumo aos novos trabalhos, prestando atenção aos apelos que a realidade faz, buscando superar novos desafios e obstáculos, sempre olhando com misericórdia os irmãos e irmãs, procurando conhecer os seus problemas e necessidades e sendo para todos a manifestação do amor de Deus que responde ao clamor dos seus filhos e filhas. Por isso, quando terminamos uma etapa da caminhada, devemos iniciar outra imediatamente, pois a proposta do Reino exige isso.

 

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