"Sal da Terra e Luz do Mundo”, Mt 5,13-14

07 de janeiro de 2018 – Quarta-feira, 5ª semana

Leitura: 1Rs 10,1-10

A leitura da visita da rainha de Sabá ilustra as afirmações genéricas do capítulo 5, exaltando a sabedoria e as riquezas de Salomão. Através de traços provavelmente legendários, nos permite apreciar a atividade comercial do rei. Em 5,15-32, Salomão fez aliança com Hiram, rei de Tiro (já era aliado de Davi, cf. 2Sm 5,11) para ter madeira (cedros do Líbano) para construção do templo (cf. v. 11s). Os fenícios não eram os únicos comerciantes da época (este povo cananeu inventou o alfabeto e ficava no litoral mediterrâneo, em Tiro e Sidônia no Líbano e em Cartago na Tunísia). Ao norte, a Fenícia concentrava o comércio marítimo. Mas pelo sul da península da Arábia, zarpavam naves mercantes para a África e a Índia.

Por terra, as caravanas, frotas do deserto, eram o grande meio de transporte e comunicação mercantis: ao norte, a capital da Síria, Damasco, era uma encruzilhada importante entre Mesopotâmia e o Egito ou Arábia meridional; ao sul, vários reinos árabes repartiam a tarefa entre si, e a um dele pertencia a rainha da historia. Israel se encontra em posição de passagem obrigatória para boa parte do comércio e das expedições militares. A expansão territorial de Davi lançou bases para uma expansão comercial. Salomão domina a Transjordania e possuí Asiongaber (Esion-Gueber, perto de Eilat no golfo de Ácaba, onde montou uma frota no mar Vermelho, cf. 9,26), assim controla as rotas de caravanas da Arábia para o norte da Síria e para o Egito. Chegando ao golfo de Ácaba, Salomão entra em relações obrigatórias e pacíficas com os mercadores do sul; graças ao seu tratado com Tiro e a suas relações com Damasco, chega a ser uma autêntica potência de intercâmbios comerciais.

A rainha de Sabá, tendo ouvido falar – para a glória do Senhor – da fama de Salomão, veio prová-lo com enigmas. Chegou a Jerusalém com numerosa comitiva, com camelos carregados de aromas, e enorme quantidade de ouro e pedras preciosas. Apresentou-se ao rei Salomão e expôs-lhe tudo o que tinha em seu pensamento. Salomão soube responder a todas as suas perguntas: para ele nada houve tão obscuro que não pudesse esclarecer (vv. 1-3).

O jeito fabular da narrativa não exclui, de modo algum, um pano de fundo histórico apontando relações comerciais entre Salomão e Arábia. O reino de Sabá ocupava o sudoeste da península arábica, mas esta rainha era mais provavelmente a soberana de uma das colônias sabéias (cf. Jó 1,15; Jl 4,8) existentes na Arábia do norte. O motivo da sua visita pode ter sido o estabelecimento de relações comerciais (cf. as viagens internacionais da presidente Dilma). Mt 12,42p a chama de “rainha do sul”. A narrativa se encontra nas tradições abissínia (Etiópia) e muçulmana (nesta com o nome da rainha: Balkis).

Na realidade, não se sabe ao certo onde o autor do livro localizava o reino de Sabá (ou Sheba; cf. Gn 10,28; Is 60.6; Ez 27,22; Sl 72,10). Notam-se as riquezas de ouro e pedras preciosas (v. 2; Sl 72,15), de incenso e canas aromáticas (Is 60,6; Jr 6,20). Quer parecer, que um reino sabeu, no sul da Arábia, teria conhecido um período próspero entre 900 e 450 a.C., devido provavelmente às suas transações com a Índia.

Sabá é mencionado muitas vezes junto com Dadã, outro povoado árabe (Gn 10,7; 25,3; Ez 28,13), e é contado entre as grandes tribos caravaneiras (Ez 27,20s; Jr 6,20; Jr 6,20; Jl 4,8; Jó 6,19). Esta nação longínqua virá prestar homenagem ao rei futuro (Sl 72,10.15), na Jerusalém nova (Is 45,14; 60,6s; cf. Mt 2,11).

A exercitação com enigmas é um duelo de talento em contexto de reis (cf. Eclo 47,15.16; Jz 14,12-18). Salomão sabe responder (cf. Eclo 47,17.18), sua sabedoria ilumina.

Quando a rainha de Sabá viu toda a sabedoria de Salomão, a casa que tinha construído, os manjares da sua mesa, os cortesãos sentados em ordem à mesa, as diversas classes dos que o serviam e suas vestes, os copeiros, os holocaustos que ele oferecia no templo do Senhor, ficou pasmada (vv. 4-5).

Salomão parece um gênio comercial dominada pela pressa de construir e pelo afã de luxo refinado (cf. Ecl 2,4-10; Eclo 47,18b.20). O que chama atenção numa visão mais crítica, porém, é de um lado, a superficialidade da elite (brincadeiras e adivinhação), e de outro, o gasto com o luxo despendido nessas visitas (grande comitiva, presentes caros, banquetes).

E disse ao rei: ”Realmente era verdade o que eu ouvi no meu país a respeito de tuas palavras e de tua sabedoria! Eu não queria acreditar no que diziam, até que vim e vi com os meus próprios olhos, e reconheci que não me tinham dito nem a metade. Tua sabedoria e tua riqueza são muito maiores do que a fama que chegara aos meus ouvidos. Feliz a tua gente, felizes os teus servos que gozam sempre da tua presença e que ouvem a tua sabedoria! Bendito seja o Senhor, teu Deus, a quem agradaste, que te colocou sobre o trono de Israel, porque o Senhor amou Israel para sempre, e te constituiu rei para governares com justiça e eqüidade” (vv. 6-9).

A Bíblia do Peregrino (pag. 632) comenta: Nas palavras da rainha, o autor implica uma escala de valores; primeiro, uma sabedoria espetacular que surpreende por uns dias a visitante; segundo, a sabedoria que ensina e instrui cotidianamente os súditos; terceiro, é o governado justo, dom que Deus concede por seu amor ao povo. Pondo essas palavras na boca de uma rainha, o autor realça o valor do testemunho; o rei está em função do povo para a justiça.

A rainha queria ver “com os próprios olhos” para crer o que tinha ouvido (cf. Tomé e sua profissão de fé em Jo 20,24-29). Ela parabeniza não só o rei, mas também seu povo, “suas mulheres” (versões “teus homens”, aqui traduzido por “tua gente”) e seus “servos que gozam sempre da sua presença” (cf. Lc 10,23-24p; 11,27s).

O louvor se dirige não só a Salomão, mas a Deus (cf. a inserção em v. 1: “para a glória (lit. nome) do Senhor”; falta em grego e 2Cr 9,1), a “Javé que ama Israel para sempre” e quem constituiu o “rei para governar com justiça” (cf. 3,9.11 2Sm 23,3).

Depois, ela deu ao rei cento e vinte talentos de ouro e grande quantidade de aromas e pedras preciosas. Nunca mais foi trazida tanta quantidade de aromas como a que a rainha de Sabá deu ao rei Salomão (v. 10).

O rei Hiram já enviou a Salomão a mesma quantia de ouro (cf. 9,10-14) que corresponde a 4.000 quilos de ouro.

Evangelho: Mc 7,14-23

Depois de responder bem à crítica dos fariseus sobre comer os pães sem lavar as mãos (cf. vv. 1-13; evangelho de ontem), Jesus se dirige à multidão (v. 14-16) e depois, em casa, aos discípulos.

Jesus chamou a multidão para perto de si e disse: “Escutai todos e compreendei: o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (vv. 14-16).

Já não se trata de uma tradição, de interpretação e observância, mas da própria lei, ou seja, dos tabus alimentares rituais (Lv 11; Dt 14). Na torá (a “lei” de Moisés, em grego o Pentateuco, os primeiros cinco livros do AT), Deus diz: “Separai o puro do impuro” (Lv 10,10) e: “Separai também vós os animais puros dos impuros… e não vos contamineis com animais, aves ou répteis que eu separei como impuros. Sede santos para mim, porque eu, o Senhor, sou santo…” (20,25-26). O que Jesus diz equivale à abolição formal dessa lei (vv. 19-20; At 10,9-15).

O apelo ao ouvido (v. 16; cf. 4,9.23) falta na maioria dos manuscritos.

Quando Jesus entrou em casa, longe da multidão, os discípulos lhe perguntaram sobre essa parábola. Jesus lhes disse: “Será que nem vós compreendeis? Não entendeis que nada do que vem de fora e entra numa pessoa, pode torná-la impura, porque não entra em seu coração, mas em seu estômago e vai para a fossa?” Assim Jesus declarava que todos os alimentos eram puros (vv. 17-19).

No evangelho de Mc, Jesus só fala em parábolas à multidão de fora, mas explica-as aos seus discípulos que estão com ele num segundo momento, num círculo mais reservado (cf. 4,10-13.33s). “Parábola” traduz a palavra hebraica mashal, que pode apenas ser uma sentença lapidar e enigmática, em Mc concernente à obra para a qual Jesus foi enviado (cf. 3,23-27; 4,11). “Compreender” isso é difícil para os discípulos e também para os chefes da igreja primitiva (cf. At 10-11).  “Declarava puros”, lit.: “purificando todos os alimentos”; parte de frase obscura (talvez glosa) e interpretada de diferentes maneiras. A ab-rogação das proibições alimentares (v. 19) explica-se pela chegada do Reino de Deus e a vitória sobre satanás (cf. a questão do jejum em 2,18-22), e deve eliminar qualquer obstáculo à comunidade de mesa entre cristãos de origem judaica e cristãos de origem pagã (cf. At 10,1-11,18; Gl 2,12). Em seguida, Mc falará da comunhão dos pães com os pagãos (cf. os evangelhos dos próximos dias, da siro-fenícia e da multiplicação dos pães para 4000 pessoas, cf. vv. 24-30; 8,1-10).

Ele disse: “O que sai do homem, isso é que o torna impuro. Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. Todas estas coisas más saem de dentro, e são elas que tornam impuro o homem” (vv. 20-23).

O que se segue é, para os discípulos, um comentário ao novo princípio. A expressão “o que sai do homem” pode soar com um duplo sentido (excremento, cf. Dt 23,13-15, o que induz à explicação do v. 19). Sem negar a existência do diabo, o evangelho não joga a culpa num ser fora do homem, mas insiste na responsabilidade do próprio ser humano, “de dentro do coração saem as más intenções… Todas estas coisas más saem de dentro” (vv. 20-23). Seu coração, sua consciência livre, é a fonte da vida moral. A lista de doze pecados, embora seletiva, quer abranger os principais campos ou os mais frequentes; alguns pertencem ao decálogo (dez mandamentos, cf. Ex 20; Dt 5).

O site da CNBB comenta: Todos nós somos capazes de ver a influência que a sociedade exerce sobre o comportamento das pessoas e muitas vezes ouvimos pessoas que querem responsabilizar outras pessoas ou a sociedade pelos seus próprios atos. Jesus, no Evangelho de hoje, nos mostra que, na verdade, a responsabilidade do ato compete à própria pessoa, pois a pessoa age de acordo com os valores ou desvios que estão presentes no seu coração. É claro que existe a influência do meio, mas ela só determina a vida da pessoa se encontra eco no seu coração, caso contrário, a pessoa rejeita essa influência.

 

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