MARIA, MÃE DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS DE JESUS CRISTO

09 de janeiro de 2018 – Sexta-feira, 5ª semana

Leitura: 1Rs 11,29-32; 12,19 

O cap. 11 nos apresenta Salomão pecador e as sombras do seu reinado. Depois da idolatria introduzida por suas mulheres estrangeiras (vv. 11-13, leitura de ontem), Salomão fracassa nas rebeliões de Edom (vv. 14-22.25b) e Damasco (vv. 23-25a) perdendo importantes vias comerciais. A fracassada rebelião de Jereboão (vv. 26-40) é mais grave ainda, pois ameaça por dentro a unidade e estabilidade do reino.

A Bíblia do Peregrino (p. 635) comenta: Como tantas vezes na história, a autoridade está promovendo seu futuro inimigo; o ímpeto construtor do rei é a ocasião específica desta história. É um sintoma da fraqueza incubada pela magnificência de Salomão, e pode ter sido um aviso salutar.

Como antigamente o Faraó em Ex 1,11, Salomão pecou impondo trabalhos forçados para suas construções (cf. 5,27-30; 9,15-23). Colocado por Salomão na frente dos proletários de Efraim e Manassés (v. 28: “à frente de toda corveia da casa de José”), Jeroboão conheceu a miséria deles (como outrora Moisés) e aprendeu a arte de comandar. Mas também como Moisés, ainda não tinha aprendido a paciência.

Aconteceu, naquele tempo, que, tendo Jeroboão saído de Jerusalém, veio ao seu encontro o profeta Aías, de Silo, coberto com um manto novo. Os dois achavam-se sós no campo (11,29).

O manto é símbolo do oficio profético (cf. a aparição de Samuel em 1Sm 28,14; o manto de Elias em 2Rs 1,8; 2,8.13s; também João Batista em Mt 3,4p). O “manto novo” servirá para uma função sagrada e indica uma situação nova no oráculo seguinte (vv. 31-39), o reino novo surgirá.

A Bíblia do Peregrino (p. 635) comenta: Neste oráculo, o narrador quer dar-nos a chave de leitura do próximo evento transcendental.  A escolha e a promessa condicionada de uma dinastia legitimam de antemão o novo reino que vai surgir. Um profeta de Silo, a velha e sagrada cidade do norte, situada em território de Efraim, assiste a concepção desse novo reino em oposição à capital de Salomão, Jerusalém. O profeta de Silo evoca recordações de tempos heróicos e singelos (Js 18,1; Jz 21,19-24; 1Sm 1-3).

Aías, tomando o manto novo que vestia, rasgou-o em doze pedaços e disse a Jeroboão: “Toma para ti dez pedaços. Pois assim fala o Senhor, Deus de Israel: Eis que vou arrancar o reino das mãos de Salomão e te darei dez tribos. Mas ele ficará com uma tribo, por consideração para com meu servo Davi e para com Jerusalém, cidade que escolhi dentre todas as tribos de Israel” (11,30-32).

O gesto lembra a ruptura no reinado de Saul quando este rasgou o manto de Samuel que respondeu: “Hoje o Senhor te arrancou o reino e o entrega a outro mais digno do que tu” (1Sm 15,27ss). As ações simbólicas dos profetas são gestos não apenas expressivos, tornam a palavra visível, sensível, eficaz (cf. 22,11; Os 1-3; Jr 18-19; 27,1-8; 28,1-4.10-14; Ez 4,1-3; 9-5,17; 12,1-20; 24,3-14; 37,15-28 etc.; no NT, Mt 21,18-19p; At 21,10-14).

Os dez pedaços dados a Jeroboão significam as dez tribos do norte (cf. 2Sm 19,44), restam dois pedaços, mas que só representam uma tribo deixada para o sucessor de Salomão. Dez tribos formarão o novo reino do Norte (chamado de “Israel”, cf. 12,1.19, ou Efraim ou Samaria). Jeroboão é efraimita, da grande tribo que dominou Israel, no norte (Efraim é sinônimo pelo reino de Israel, cf. Os 11,1.3.8 etc.). Ele é apoiado por Aías, profeta do santuário de Silo da região da mesma tribo. A desproporção, dez tribos para uma (cf. 2Sm 19,44) mostram a importância do norte (Israel) em relação ao sul (Judá).

Para a casa de Davi resta uma só tribo, “Judá” (o reino do Sul). O texto hebraico diz “uma tribo”, o grego “duas”, o que é mais lógico (cf. v. 32). Parece que Judá compreendia de fato, uma segunda tribo assimilada por ela, seja Simeão (Js 19,1), seja Benjamim (12,21).

Uma vez que a dinastia de Davi em Jerusalém (na pessoa de Salomão e depois seus sucessores) tomou um caminho falso, Deus já não quer o reino unido, que não subsistirá; contudo, o Senhor manterá sua promessa a Davi (cf. vv. 11-13, leitura de ontem). Nesse momento e sob a palavra de Deus, a história de Israel se bifurca.

 “Salomão tentou matar Jeroboão, mas Jeroboão fugiu para o Egito… e esteve aí até que Salomão morreu” (v. 40; cf. a sagrada família fugindo de Herodes em Mt 2). A fuga de Jeroboão inicia um período de gestação e na sua ausência a situação amadurecerá (como a ausência de Moisés em Ex 2,15-4,31).

Israel rebelou-se contra a casa de Davi até ao dia de hoje (12,19).

Esta nota permite datar a redação desta narrativa até do momento da ruína do reino da Samaria em 722 a.C. (cf. 2Rs 17). Ao iniciar-se a terceira geração (Davi, Salomão, Roboão, filho de Salomão), a monarquia começa a sua descendência com uma ruptura irremediável. O sólido edifício não racha por um acidente grave; antes a fratura revela que o edifício não era tão solido.

Depois da morte de Salomão, não foi em Jerusalém, vinculada a dinastia de Davi, mas em Siquém onde se juntou a assembleia de “Israel” (12,1-18; cf. a renovação da aliança por Josué em Js 24), para a qual foram chamados Roboão, filho de Salomão e Jeroboão. À primeira vista foi um protesto contra as cargas fiscais, impostos ou serviços pessoais. Mas isso era ocasião para que entrassem em ação umas causas mais profundas: o rancor do antigo Israel contra a usurpação da monarquia davídica (cf. 1Sm 8), Siquém contra Jerusalém, os veneráveis santuários (Silo, Siquém, …) contra o culto central no novo templo do rei; o profetismo do povo contra o exclusivismo clerical do templo em Jerusalém. Na revolta das dez tribos, Jeroboão tornou-se o rei de Israel, enquanto Roboão se refugiou a Jerusalém ficando como rei de Judá.

A Bíblia do Peregrino (p. 636) comenta: A política fiscal de Salomão tinha posto em movimento a riqueza, os bens importados; o ouro tinha servido ao prestígio do monarca e ao orgulho de um povo que por fim se sente importante e bem representado. Mas os prolongados sacrifícios que semelhante política exigida despertam as velhas recordações e a saudade da liberdade perdida. São os da velha geração que recomendam a mudança de política a redução de impostos; fazendo isso empregam uma linguagem que nos faz recordar a escravidão do Egito: a “dura servidão” é justamente o que o Faraó impôs aos israelitas. O povo que conta e canta a epopeia da sua libertação da escravidão, vai acabar escravo de uma espécie de faraó doméstico? A ameaça de Samuel a respeito da monarquia está se cumprindo cedo demais, e os representantes do povo voltam a sonhar com algo perdido, embora não pensem em renunciar ao regime monárquico.

Salomão foi escolhido e imposto pelo próprio Davi; com seu prestígio pessoal pôde tornar-se a decisão aceitável. Não sabemos se Roboão era o primogênito ou foi designado por Salomão (o narrador não menciona aqui outros irmãos rivais). Seja como for, uma monarquia “constitucional” poderia mudar a direção despótica perigosamente introduzida por Salomão …

Salomão podia ter evitado o desastre trabalhando com mais consciência e acerto, com mais sabedoria, para fermentar a unidade nacional? Ou se embriagou com seu próprio esplendor? Morto ele, Roboão teve como afastar o perigo e sanar a herança ameaçada? Parece que sim, pois os representantes de Israel ainda desejavam preservar o reino unido em condições mais justas. Mas Roboão era cria do luxo salomônico, crescido com as novas ideias cortesãs. Faltaram-lhe perspicácia e tato e precipitou os fatos. Além disso, diz o narrador ai estava Deus, imprimindo com sua palavra profética novo curso à história.

De que lado está Deus? Em 12,24, Javé Deus aprova a revolta do povo contra uma autoridade injusta que não sabe “ouvir” o clamor do povo (cf. 3,4-15; Ex 3,7).

 

Evangelho: Mc 7,31-37

Depois de curar à distância a filha endemoniada de uma mãe na região de Tiro na Sirofenícia (atual Líbano; cf. 7,24-30; evangelho de ontem), Jesus continua atuando em território pagão.

Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galileia, atravessando a região da Decápole. Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão (vv. 31-32).

O itinerário que Marcos traça é estranho; assim revele a falta de conhecimento geográfico do evangelista (nos caps. 6-8), porque é um ziguezague: saindo do litoral mediterrâneo (Tiro), Jesus parte primeiro para o norte (Sidônia) para depois ir a Decápole (passando pela Galileia ou Traconítide?). A Decápole (5,1-20) é uma região de “dez cidades” helenistas (de cultura grega) a leste do lago de Genesaré (“mar da Galileia”). De qualquer modo, Mc quer situar Jesus outra vez em território pagão ao redor da Galileia.

Uns peritos sustentam que a origem deste relato da cura do surdo seja uma tradição dupla (com a do cego de Betsaida em 8,22-26) situada talvez na Palestina (Jesus fala ainda aramaico como o surdo em v. 34). De fato, Mc não explica quem são “eles” que trouxeram o deficiente auditivo, nem quem é o “multidão”: moradores judeus ou pagãos?

Hoje não se fala mais “surdo-mudo”, mas apenas “surdo”, porque a dificuldade de falar vem da deficiência auditiva: o homem falaria perfeitamente se ouvisse. “Falar com dificuldade”; uns traduzem “gaguejar”, porém, surdos não repetem sílabas, mas falam sem articulação e de modo incompreensível. A mesma expressão só se encontra em Is 35,5 grego (citada aqui na aclamação do povo em v. 37). Pediram que lhe “impusesse a mão” (só aqui e em Mt 9,18; a expressão costumeira no NT é no plural: impor as mãos; cf. 5,23).

Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele (v. 33).

O doente está incomunicável em grande parte. O relato segue ao esquema de curas helenistas: ao surdo, Jesus fala primeiro com gestos corporais, comprometendo o tato, tocando os órgãos doentes. O dedo transmite poder e é sinal dele (Ex 8,15; Lc 11,20), penetra e abre o ouvido (cf. Sl 40,7, texto hebraico). Os antigos atribuíam à saliva virtudes terapêuticas (a de Jesus é milagrosa, cf. Jo 9,6s) e o poder de espantar espíritos maus (cf. Gl 4,14). De fato, a saliva tem certa qualidade anti-inflamatória como se pode observar em animais lambando suas feridas.

Olhando para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abre-te!” Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade (vv. 34-35).

Erguendo os olhos ao céu indica “de onde vem o auxílio” (Sl 121,1 e 123,1). Este gesto é comum para oração (cf. 6,41). Aqui significa abastecer-se da força divina, assim como o suspiro (cf. Rm 8,22-27). Este gemido funciona como súplica (cf. Rm 8,26). Depois pronuncia o mandato peremptório que “abre” e “desata, solta” (talvez a palavra alude a amarração por um demônio de doença, cf. Lc 13,16; o amarrado será solto, liberto). Diferente de outros relatos do âmbito helenista, Jesus se dirige aqui à pessoa, não aos órgãos ou demônios. A cura é constatada logo, “imediatamente” (palavra preferida de Mc).

A palavra aramaica poderia indicar que a o relato nasceu num âmbito da Palestina. Mas no gênero literário de relatos de curas da época, o protagonista curandeiro usa gestos estranhos e fala em línguas exóticas (mágicas). Jesus fala uma palavra de sua língua materna (aramaica), “Efatá”. O evangelista a traduz para que seus leitores greco-romanos não a confundam com magia (cf. “Talita cum” em 5,41; “Hosana” em 11,9; ”Abba” Pai em 14,36; “Eloi…” em 15,34). A fórmula “Efatá – Abre-te” ao tocar nos ouvidos entrou na liturgia antiga do batismo simbolizando a abertura da fé (cf. Rm 10,14s: “a fé vem do ouvido”; cf. o shema – “ouça Israel” em Dt 6,4).

Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam. Muito impressionados, diziam: “Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar” (vv. 36-37).

Como em outras ocasiões, Jesus não quer a divulgação da sua cura. É o chamado “segredo do messias”, uma característica no Evangelho de Mc (1,24s.34.44; 3,12; 5,43; 7,36; 8,25.30; 9,9). Jesus não quer ser confundido com um messias guerreiro igual a Davi ou com um médico famoso que prolonga a vida dos doentes. A sua missão de messias é salvar o povo através da doação de sua própria vida, e isso só se revelará na cruz (cf. 10,45; 15,39).

Mas as pessoas “muito impressionadas” não conseguem guardar o segredo (cf. 1,45; 4,22) e prorrompem numa exclamação que recorda a ação criadora de Gn 1,31 e a profecia de Is 35,5s: o criador “tem feito tudo bem”, o redentor restaura a bondade. Por Jesus, a criação caída será renovada inteiramente (cf. Ap 21,5 e o significado simbólico do primeiro dia da semana em Gn 1,3-5 e Mt 28,1p).

A Tradução Ecumênica da Bíblia (p. 1939) observa certas semelhanças da cura do surdo em vv. 32-37 com a do cego em 8,22-26: Esses dois relatos, próprios de Mc e situados cada uma ao termo de uma série de episódios ligados a uma multiplicação dos pães, parecem tomar em Mc o valor de sinais de apoio para uma catequese inspirada em Is 35,5-6, aqui citada em v. 37. O texto de Is, citada em Mt 11,5p fala não só da cura dos surdos e mudos, ilustrada pela primeira narrativa, mas também da dos cegos, ilustrada pela segunda.

O site da CNBB resume: A comunicação é fundamental para que a pessoa possa viver em sociedade, e quem tem dificuldades para se comunicar pode facilmente ser excluído da comunidade à qual pertence. Quando vemos Jesus curar o surdo-mudo, ele não está simplesmente resolvendo o problema de saúde de alguém, mas está criando condições para que essa pessoa possa ser integrada na comunidade em que vive, possa também discutir os seus valores e deixar de ser uma pessoa com dependência, mas ser protagonista da sua história e da sua própria vida, portanto os benefícios que Jesus propicia ao surdo mudo vão muito além da simples cura.

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