MARIA, MÃE DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS DE JESUS CRISTO

11 de fevereiro de 2018 – 6º Domingo, Ano B

1ª Leitura: Lv 13,1-2.44-46 (ou facultativa: 2Rs 5,9-14, ver abaixo)

A 1ª leitura foi escolhida em vista da cura do leproso no evangelho de hoje.  No livro Lv, um capítulo inteiro ser dedica à esta doença. Mas temos que ver este capítulo dentro do o contexto da Lei do puro e impuro (11,1-15,33).

A Nova Bíblia Pastoral (p. 130) comenta: No mundo antigo, epidemias e alta mortalidade exigiam identificar e afastar as causas da morte. Por isso, a sabedoria familiar/comunitária, movida pelo sagrado espírito da promoção da vida, na sua adaptação ao ambiente, criou rituais e tabus sobre comida, saúde, sexualidade e religião. Ao inclui-los em sua lei, por volta de 400 a.C., os sacerdotes estenderam sua jurisdição sobre os corpos e suas relações sociais, ambientais, sexuais e religiosas, consolidando a teocracia sacerdotal de Jerusalém. Associados ao pecado visto como impureza que se transmite, os tabus na lei servem para legitimar hierarquias, culpabilizar, explorar e excluir pessoas, perdendo assim seu caráter promotor da vida. Jesus pertencia ao grupo dos que buscavam resgatar a promoção da solidariedade e da vida na vivencia religiosa e comunitária de seu tempo (cf. Is 1,10-18; 58,1-7; Jr 7,1-11; Os 6,6; Am 5,21-24; Mq 6,5-8; Mt 3,4-9; 12,1-14; Mc 2,27; 7,1-23; Jo 10,10; 2Cor 3,6).

O Senhor falou a Moisés e Aarão, dizendo: “Quando alguém tiver na pele do seu corpo alguma inflamação, erupção ou mancha branca, com aparência do mal da lepra, será levado ao sacerdote Aarão, ou a um dos seus filhos sacerdotes (vv. 1-2).

Para abordar corretamente este capitulo Lv 13, é não traduzir o termo hebraico por “lepra”. Os sintomas descritos não correspondem de maneira alguma ao que a medicina moderna chama lepra (“hanseníase”); esta era desconhecida no Oriente Médio antes de Alexandre Magno (333 a.C.).

Aparência “mal” da lepra, lit. “golpe”. A mesma palavra designa a doença, o doente (v. 4) ou a mancha de uma roupa (v. 47). A Nova Bíblia Pastoral (p. 132) comenta: 13,1-59 Anormalidade na pele, e até nas roupas (13,47-59) e paredes (14,33-53), eram classificadas como lepra e associadas à ação das divindades (cf. 14,34; Ex 4,6-7; Nm 12,11-15; 2Rs 15,5). Ritos populares buscavam curar a pessoa atingida (2Rs 5; Mt 10,8; 11,5; Mc 1,40-44; 14,3) e proteger a comunidade (2Rs 7,3-10). No entanto, a lei pós-exílica, vendo tudo como pecado/impureza contaminante, promove mais a exclusão do que a solidariedade (vv. 45-46, cf. Nm 5,1-4).

A Tradução Ecumênica da Bíblia (p. 175) comenta: Em oposição à saúde, que é o estado normal, a lepra, como aliás toda doença, é um estado insólito; é preciso proteger o grupo das forças misteriosas que agem no caso, declarando a impureza do homem ou da coisa doente. O sacerdote desempenha aqui o papel de um especialista, encarregado de decidir se existe realmente impureza ou não.

Nossa liturgia omite os diversos “diagnósticos” dos vv. 3-43. A Bíblia do Peregrino (p. 198) comenta: Não podemos negar o caráter higiênico de muitas destas prescrições: várias moléstias descritas são contagiosas, e a assembleia cultural podia ser lugar de contagio. A legislação cultual favorecia a atenção prestada a enfermos com o diagnóstico tempestivo, a segregação, indiretamente a cura. Mas, não é esse interesse do autor; a sua perspectiva é rigorosamente cultual, as enfermidades da pele produzem um estado de impureza que, sendo possível, se deve remover.

Se o homem estiver leproso é impuro, e como tal o sacerdote o deve declarar. O homem atingido por este mal andará com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: ‘Impuro! Impuro!’ Durante todo o tempo em que estiver leproso será impuro; e, sendo impuro, deve ficar isolado e morar fora do acampamento” (vv. 44-46).

O diagnóstico e precauções coletivas contra o contágio são confiados à decisão do sacerdote, em se tratar de um valor religioso como discernimento do “impuro”. Israel deve ser uma nação pura diante de Deus. Ao “leproso” impõem-se ritos de luto (cf. Jó 2,7s), que advertem os outros a manterem distância de um ser impuro e que significa que este está excluído do mundo normal dos vivos. Se constatar uma cura, a reintegração na comunidade dá lugar a ritos semelhantes ao sacrifício pelo pecado (14,1-31.49-53), “pecado” como atentado à virtude vivificante do Deus de Israel.

A Bíblia do Peregrino (p. 198) comenta: Em caso extremo, de enfermidade incurável, o doente é afastado da comunidade: para circunscrever o contágio, pensamos nós; para que não contamine o culto, pensa o autor. Ver o episódio de 2Rs 7 e o grito de Lm 4,15. Desse tipo parecem ser os casos que Lc 17par recolhe.

A Nova Bíblia Pastoral (p. 132) resume: Anormalidade na pele, e até nas roupas (13,47-59) e paredes (14,33-53), eram classificadas como lepra e associadas à ação das divindades (cf. 14,34; Ex 4,6-7; Nm 12,11-15; 2Rs 15,5). Ritos populares buscavam curar a pessoa atingida (2Rs 5; Mt 10,8; 11,5; Mc 1,40-44; 14,3) e proteger a comunidade (2Rs 7,3-10). No entanto, a lei pós-exílica, vendo tudo como pecado/impureza contaminante, promove mais a exclusão do que a solidariedade (vv. 45-46, cf. Nm 5,1-4).

1ª Leitura facultativa: 2Rs 5,9-14

A leitura de hoje apresenta a cura de Naamã, um estrangeiro leproso mergulhando no rio Jordão. Por isso, foi relacionada com o batismo pelos cristãos.

Nossa liturgia só apresenta a segunda parte, o encontro de Naamã com o profeta Eliseu e a cura da sua doença. Os vv. anteriores (vv. 1-8) apresentam Naamã, general vitorioso do exército do rei da Síria, “mas esse homem, valente guerreiro, era leproso” (v. 1b).

Provavelmente, a doença não é propriamente lepra, porque se fosse o perigo de contágio, o afastaria de qualquer cargo no governo; trata-se de uma doença crônica na pele, talvez leucodermia ou vitiligo (cf. v. 27; Lv 13). Na época, a cura da lepra era vista tal difícil e improvável como a ressurreição de um morto (cf. Mc 1,40-45p; Lc 17,11-19; Jo 11).

Hoje a lepra chama-se “hanseníase” segundo o médico Hansen que descobriu a causa e a cura em 1837 d.C.; a causa desta doença é uma infecção dos nervos pelo contágio através de cotículas do hálito, e se não for tratada, afeta a pele tornando- insensível; depois a carne apodrece até caírem membros do corpo e a pessoa morrer. Mas, hoje em dia, se tomar o remédio (comprimidos), a pessoa sara e não contagia mais.

O assunto começa em casa de Naamã com uma empregada de Israel que fala para sua patroa de ir e procurar o profeta que residia em Samaria (capital do norte de Israel). Da patroa a sugestão sobe ao marido, que informa seu patrão, o rei de Aram/Síria, e deste, através de uma carta, ao rei de Israel (provavelmente Jorão, 848-841 a.C.). O rei de Israel não acredita muito na sinceridade do pedido e suspeita do rei da Síria “que ele busca um pretexto contra mim” (v. 7c). “Rasgou suas vestes” em sinal de luto e tristeza e disse: “Sou Deus por ventura, que possa dar a morte e a vida?” (cf. Dt 32,39; Os 6,1; 1Sm 2,6; Jo 5,18). Mas Eliseu manda dizer ao rei de Israel “Que ele venha a mim, para que saiba que há um profeta em Israel” (v. 8). A missão do profeta não é apenas falar em nome de Deus, mas também ser o portador de seu poder de curar e dar vida (cf. Is 61,1; Mt 11,5).

Em contraponto com esse movimento ascensional (empregada, patroa, general, rei, “deus”), há outro movimento de humilhação: o general tem que descer do rei ao profeta, deste a um servo, depois desce ao Jordão.

Naamã chegou com seus cavalos e carros, e parou à porta da casa de Eliseu. Eliseu mandou um mensageiro para lhe dizer: “Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e tua carne será curada e ficarás limpo” (vv. 9-10).

O profeta Eliseu ignora toda tropa do general na porta da sua casa, seus carros, cavalos e presentes luxuosos (vv. 5b.9; cf. 14,3), nem o recebe pessoalmente, só manda um servo, um mensageiro para lhe dizer: “Vai, lava-te sete vezes no Jordão” (v. 10).

Naamã, irritado, foi-se embora, dizendo: “Eu pensava que ele sairia para me receber e que de pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, e que tocaria com sua mão o lugar da lepra e me curaria. Será que os rios de Damasco, o Abana e o Farfar, não são melhores do que todas as águas de Israel, para eu me banhar nelas e ficar limpo?” Deu meia-volta e partiu indignado. Mas seus servos aproximaram-se dele e disseram-lhe: “Senhor, se o profeta te mandasse fazer uma coisa difícil, não a terias feito? Quanto mais agora que ele te disse: Lava-te e ficarás limpo” (vv. 11-13).

Naamã ficou irritado, porque pensava em receber tratamento particular e uma terapia cara em vez de uma receita tal banal (tratamento SUS). O orgulho e os costumes impedem uma cura simples como mudar de comportamentos. “Os rios de Damasco não são melhores do que todas as águas de Israel? Deu meia volta e partiu indignado” (v. 12), mas seus servos conseguiram convencê-lo. O rio Jordão não é um rio grande, mas representa a terra de Israel onde se adora o verdadeiro Deus.

Para obter a cura, o homem rico e poderoso tem que reconhecer que não é superior, também é um ser humano necessitado como todos os outros que precisam da misericórdia de Deus.

Então ele desceu e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme o homem de Deus tinha mandado, e sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado. (vv. 14-15a).

Sete é número sagrado que significa plenitude (cf. a semana da criação em Gn 1). “Então ele desceu e mergulhou sete vezes no Jordão e sua carne tornou semelhante a uma criancinha” (v. 14). Naamã rejuvenesceu pelas águas do Jordão. Hoje, muita esperança se coloca na terapia com células tronco tiradas de embriões; este método é um problema ético, mas se pode adquirir células tronco também através do cordão umbilical e outras partes.

Nossa liturgia omite também o final da história em seguida: Naamã volta ao profeta e faz uma profissão de fé monoteísta: “Agora estou convertido de que não há outro Deus em toda a terra, senão o que há em Israel” (v. 15). Quer ainda dar presentes (v. 15b), mas Eliseu não aceita; então Naamã pede para levar uma carga de terra de Israel para adorar o Senhor na Síria, porque, para os judeus, terra estrangeira era impura, maculada pela presença de ídolos (vv. 16-17, cf. Am 7,17; Os 9,3-4).

Ao homem rico e valente em aparência, mas doente na pele, Eliseu mostra o essencial. Naamã aprende que precisa da obediência da fé (na palavra do profeta) em vez de muitos bens, porque a salvação não se compra, é pura graça (como o apóstolo Paulo diria). Há outras histórias que terminam com a profissão de fé de um rei pagão (Dn 2,47; 6,27-28).

O “mergulho no Jordão e a “profissão de fé” são elementos que prefiguram o batismo cristão (cf. Mc 1,1-11; cf. o batismo de estrangeiros em At 8; 10; 16). Os Padres da Igreja comparam a lepra com o pecado original (contágio do mal) do qual só se cura com a água do batismo (“nascer de novo”, cf. Jo 3,3-6; Rm 5-6).

 

2ª Leitura: 1Cor 10,31-11,1

A primeira carta aos coríntios dá resposta a vários problemas da comunidade, um era a vivência cristã num ambiente pagão. A Nova Bólia Psttoral (p. 1397) comenta o contexto desta leitura: Depois dos vários exemplos da Escritura, segue-se a aplicação concreta aos problemas da comunidade. O primeiro é a participação nos banquetes oferecidos aos ídolos (10,14-22). O assunto já foi tratado (cap. 8), mas retorna agora com o argumento da eucaristia. O segundo problema se refere às refeições familiares junto aos pagãos (10,23-30), onde se recomenda, mais uma vez, o respeito à consciência das outras pessoas, para não escandaliza-las.

(Irmãos) quer comais, quer bebais, quer que façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus. Não escandalizeis ninguém, nem judeus, nem gregos, nem a igreja de Deus (vv. 31-32).

Os vv. precedentes compararam a eucaristia aos sacrifícios judaicos e refeições sagradas do paganismo. Aqui Paulo faz o resumo de suas considerações, “fazei tudo para a glória de Deus” (cf. Cl 3,17; 1Pd 4,17), que tornou-se também o lema de S. Inácio de Loyola e sua ordem dos jesuítas: “(Tudo) para maior glória de Deus” (ad maiorem Dei gloria). A respeito dos homens procurar agradar (v. 33), mas sem trair a mensagem do evangelho. Os escândalos são empecilhos para a fé dos outros e devem ser evitados (cf. Mt 18,6s).

A Bíblia do Peregrino (p. 2754) comenta: Resume o duplo critério que rege o caso presente e qualquer outro da vida cristã. O primeiro é positivo: mesmo as atividades neutras devem ser realizadas em honra de Deus, para gloria de Deus (Sl 115,1); o segundo é negativo: não dar ocasião de escândalo a pessoas próximas ou desconhecidos.

Fazei como eu, que procura agradar a todos em tudo, não buscando o que é vantajoso para mim mesmo, mas o que é vantajoso para todos, a fim de que sejam salvos. Sejam meus imitadores, como também eu o sou de Cristo (10,33-11,1).

Já em 4,16, Paulo pediu que os coríntios o imitassem (cf. 1Ts 1,6; Fl 2,5), como filhos que imitam os pais. Ele como apóstolo “imita” Jesus (cf. o mesmo sentimento de Cristo em Fl 2,1-11), como o discípulo “segue” o mestre. Paulo não seguiu (ao pé da letra) o caminho da Galileia a Jerusalém como os apóstolos que conheceram Jesus desde o batismo no Jordão e o seguiram. Paulo não conheceu Jesus assim, chegou depois da ressurreição, só teve uma visão que o converteu, agora imita a vida de Jesus. Na idade média, o livro de Thomas Kempen “Imitação de Cristo” teve grande influência.

A Bíblia do Peregrino (p. 2754) comenta: Paulo pode apresentar-se como modelo por causa de sua origem judaica e de sua dedicação aos pagãos; mas, acima de tudo, porque imita Cristo. Cristo é o modelo primário (Rm 8,29) que o cristão imita mediata ou imediatamente (Fl 3,17; 2Ts 3,7-9). Daí brota uma espiritualidade definida como imitação de Cristo.

Os próximos caps. de 1Cor serão lidos nos mesmos domingos do Tempo Comum do Ano C.

 

Evangelho: Mc 1,40-45

No domingo passado ouvimos como Jesus curou muitos doentes em Cafarnaum, mas se afastou da cidade para pregar também em outras aldeias da região da Galileia. O papa Francisco chama isso de “Igreja em saída”, indo para as “periferias geográficas e essenciais” (cf. EG). No caminho, Jesus encontrou um leproso.

Um leproso chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: “Se queres tens o poder de curar-me”. Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: “Eu quero: fica curado!” (vv. 40-41).

Um leproso veio perto e “de joelhos, pediu” a Jesus (cf. 10,17). O pedido é como uma prece: apela à vontade de Jesus (“se queres”) revelando fé (“tens o poder”).

Alguns manuscritos de Mc têm uma versão diferente da maioria das Bíblias que traduz como aqui no texto litúrgico “Jesus, cheio de compaixão” (v. 41). A versão diferente (traduzida na Bíblia Pastoral) é: “Jesus, cheio de ira”. Muitos peritos da Bíblia dizem que esta versão da “ira” pode ser a mais original, porque é menos comum. É portanto mais original apresentar Jesus com “raiva”, em vez da “compaixão” dele que os leitores cristãos já conhecem e esperam. A compaixão de Jesus se refere à miséria humana (6,34; 8,2; 9,22), sua ira ao mal (3,5). Ambos os sentimentos mexem com nossas entranhas e deixam um desconforto querendo mudar a situação para o melhor. A palavra hebraica “compaixão, misericórdia” (rahamim) vem de “útero”; a raiva se faz sentir também nas vísceras. Ira ou comoção expressam também o poder milagroso (7,34; Jo 11,33.38).

Mt e Lc copiaram Mc, mas não escreveram “compaixão”; omitiram aqui qualquer sentimento (Jesus apenas “estende a mão …”, cf. Mt 8,3; Lc 5,13), provavelmente porque liam em Mc “ira” e não a acharam oportuno.

Os rabinos consideravam a lepra como castigo de Deus; o leproso devia ficar à distância para não contagiar outros com esta desgraça. Jesus podia ter raiva, porque o “leproso chegou perto” dele. Mas Jesus ficou com ira não do leproso, sim dos poderes malignos e omissos que levaram o homem à esta situação de abandono e exclusão total (cf. 3,5; Lv 13-14). Conhecemos a mesma mistura de sentimentos quando se aproxima um mendigo ou outra pessoa doente e marginalizada, abandonada por familiares ou entidades governamentais.

Jesus reage à profissão de fé do leproso e não tem medo de tocar nele. Jesus “estendeu a mão” (cf. Moisés em Ex 4,4; 7,19; 8,1; 9,22s; 14,16.26s) e “tocou nele” (cf. os doentes que tocam em Jesus em Mc 3,10; 5,27-31; 6,56; 8,22)

Hoje a lepra é chamada “hanseníase” segundo o médico Hansen que descobriu sua causa e cura em 1837. Ela se transmite via gotículas da respiração ou saliva, mas não pelo toque da pele. Naquela época, porém, era a doença mais temida e incurável. Os sacerdotes deviam examinar e excluir o doente de qualquer convívio social, se a lepra fosse confirmada (Lv 13-14). Os leprosos deviam nem chegar perto (em Lc 17,12 “pararam a distância”), mas alertar os passantes gritando “impuro, impuro” para evitar contaminação (Lv 13,45).

No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado. Então Jesus o mandou logo embora, falando com firmeza: “Não contes nada disso a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou, como prova para eles!” Ele foi e começou a contar e a divulgar muito o fato. Por isso Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos. E de toda parte vinham procurá-lo (vv. 42-45).

Sem mais palavras ou outros gestos (cf. Moisés implorando Deus em Nm 12,14-16; Eliseu aconselhando um mergulho m Jordão), a cura acontece.

Depois de curar o homem da doença, Jesus restaura também a dignidade dele mandando-o para o sacerdote (Lv 13,49: “deve se mostra ao sacerdote”) que deve declarar a cura e revogar a exclusão do convívio (cf. Lv 13-14). Como era prescrito um sacrifício para purificação, o lugar deste só pode ser no templo em Jerusalém.

“O que Moisés ordenou”; os judeu-cristãos antes da destruição do templo (70 d.C.) se perguntaram, como se comportar diante da Lei; a resposta era cumprir, mas relativizar. Não foi Deus quem ordenou, mas Moisés que só é mencionado em Mc nos debates com mestres da Lei (cf. 7,10; 10,3s; 12,19.26).

“Como prova (lit. testemunho) para eles” (cf. Pr 29,14; Os 2,14; Mq 1,2; 7,18) pode ser entendido de modo positivo (os judeus podem ver que a comunidade cristã segue a lei) ou negativo (no contexto maior de Mc, cf. 6,11; 13,9)

A ordem de calar sobre o milagre pode fazer parte do gênero, mas é típico no Evangelho de Mc (cf. 1,25.34;  3,12; 5,43; 7,35; 8,26.30; 9,9). Jesus quer manter seu segredo de messias, mas não adianta. O homem não consegue ficar calado. Quanto mais Jesus proíbe de falar, mais as pessoas começam a “divulgar muito o fato” (cf. 7,36). O milagre é grande, um leproso era visto como um morto vivo (Nm 12,12), sua cura como ressuscitar um morto que mostra Jesus como “homem divino” (cf. 2Rs 5,7.15), portanto, aquele que era excluído dos homens torna-se arauto de Jesus.

Agora acontece uma permuta de lugares, sinal de que Jesus não apenas cura, mas assume o sofrimento humano (como na profecia em Is 53). O messias Jesus se coloca no lugar do marginalizado, ele “não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora”, enquanto o leproso marginalizado volta para o convívio social da cidade, onde é “prova” da cura e testemunho vivo contra um sistema que não cura, mas só declara quem pode e quem não pode participar da vida social.

Esta cura marca o primeiro ponto alto da atividade pública de Jesus em Mc. Sua fama se espalha, levada pelo homem libertado da lepra. Ainda mostra Jesus sem conflito com a Lei (que começa em seguida com as controvérsias dos caps. 2-3).

O site da CNBB resume: Uma das promessas que sempre estão presentes nas profecias do Antigo Testamento a respeito dos tempos messiânicos é a cura da lepra. Isso acontece porque a lepra era uma das doenças mais temidas entre as pessoas, principalmente porque uma das suas consequências era a exclusão social e religiosa. Ao curar uma pessoa da lepra, Jesus não apenas o livra da doença em si que a faz sofrer como também a reintegra na vida social e religiosa. Por isso entendemos a alegria do homem que foi curado, que fez com que ele não fosse capaz de guardar o fato só para si, mas passou a divulgá-lo de tal modo que Jesus não podia mais aparecer em público.

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