MARIA, MÃE DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS DE JESUS CRISTO

13 de fevereiro de 2018 – Terça-feira, 6ª semana

Leitura: Tg 1,12-18

Continuamos na carta de Tiago, escrito por um judeu-cristão de origem grega no final do séc. I, usando o nome de um parente de Jesus (cf. comentário de ontem). O tema da provação já foi mencionado em v. 2.

Feliz o homem que suporta a provação. Porque, uma vez provado, receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu àqueles que o amam (v. 12).

A Tradição Ecumênica da Bíblia (p. 2370) comenta: Essa bem-aventurança reproduz uma forma tradicional da exortação moral no AT prometendo felicidade a quem segue o caminho de Deus (cf. v. 25). No NT, esta felicidade é a vida escatológica (eterna) prometida especialmente aos que suportam as provações (cf. 5,11; Mt 5,10-12; Lc 12,37s; 1Pd 3,14; 4,14; Ap 14,13; 16,15).

Ao sair da provação (vv.2-4), aquele que ama a Deus receberá a sua justa recompensa. A provação visa o prêmio ou “coroa” (1Cor 9,25; 1Pd 5,4; Ap 2,10), por isso é uma bem-aventurança (“feliz, bem-aventurado”). Suportar a provação é uma prova de que o homem “ama” mais a Deus do que as coisas do mundo sugeridas pela tentação.

Ninguém, ao ser tentado, deve dizer: “É Deus que me está tentando”, pois Deus não pode ser tentado pelo mal e tampouco ele tenta a ninguém (v. 13).

Na língua grega da carta, a mesma palavra significa “provação” e “tentação”, segundo a intenção positiva (um professor aplica provas para os alunos apenderem) ou negativa (Satanás quer desviar e destruir o homem). Deus pode pôr a prova, mas não tenta (cf. Dt 13,4; 1Pd 1,6s). Em dezembro de 2017, a questão ganhou atualidade pela sugestão do papa Francisco de rever as tradições da oração do Pai Nosso: Deus quer o bem do ser humano, não induz a tentação como armadilha.

A provação, aqui na carta, é a tentação (cf. 1Cor 10,13). A Bíblia insiste que Deus é único (Is 45,5-7) e quer somente o bem (cf. Gn 1; 1Jo 1,5). Desde Adão e Eva (cf. Gn 3), os seres humanos, porém, querem pôr a culpa nos outros, até em Deus. Aquele que se deixa arrastar para o mal não deve pôr a culpa em Deus, que não pode querer o mal.

Deus não se deixa tentar pelo mal ou pelos maus, como se viu no deserto (cf. Sl 78,18.41.56; 106,14). É importante compreender esta frase – “Deus não pode ser tentado” – no sentido passivo: “Deus é inacessível ao mal”, antes que no sentido ativo: “Deus é incapaz de tentar ao mal”. Sendo lhe estranho ao mal, não pode instigar ninguém a cometê-lo. Não tenta, pois não induz ao mal; casos diferentes como Gn 22,1; 2Sm 24,1 (corrigido por 1Cr 21,1) ou 1Rs 22,19-23 devem ser tratados à parte.

Eclo 15,11-20 fala sobre a origem do pecado: o pecado não vem de Deus, e sim da liberdade do homem frente ao bem e ao mal. O pecado vem do interior do homem (Rm 7,8; cf. Mc 7,21-23) e se consuma, por si, em um estado inteiramente oposto à coroa da vida (v. 12; Rm 6,23).

Antes, cada qual é tentado por sua própria concupiscência, que o arrasta e seduz. Em seguida, a concupiscência concebe o pecado e o dá à luz, e o pecado, uma vez consumado, gera a morte (vv. 14-15).

A Tradição Ecumênica da Bíblia (p. 2371) comenta a concupiscência: “Esta deve ser equiparada às paixões que guerreiam em nossos membros (4,1-2). Desempenha o mesmo papel que as “más inclinações”, no judaísmo contemporâneo, ou ainda “o espírito de perversão e das trevas” nos escritos de Qumran (Regra 3,18-4,26; cf. Rm 7,7-8; 1Jo 2,16-17) … Em última análise, refere-se a uma história do homem pecador dividido entre potências invisíveis (Deus e o mundo, 4,4; Deus e o diabo, 4,7).

O homem é provocado e seduzido pela “dona concupiscência”. Em forma da alegoria de geração (cf. Sl 7,15; Jó 15,35), o autor fala de efeitos concatenados numa espécie de dialética vital e fatal. O autor emprega a palavra feminina em grego, a “concupiscência” (desejo, cobiça), como mulher que “seduz e arrasta”. Quando o homem cede à concupiscência, ela concebe e dá à luz ao pecado como execução. O pecado (feminino em grego) amadurece e gera fatalmente a morte.

Na doutrina tradicional, o pecado acarreta a morte (cf. Rm 5,12; 6,23; 7,13; 1Cor 15,36 etc.; Ez 18 a expõe em termos individuais). O pecado não é aqui um poder exterior ao homem, mas a própria falta (cf. 2,9; 4,17; 5,15-16.20). A mesma relação entre pecado e morte aparece na última frase da carta em 5,20. Não se trata simplesmente da morte física, mas da morte escatológica (morte eterna; cf. Ap 20,6.14; 21,8) que se opõe à vida já gerada pela palavra da verdade (v. 18) e prometida por Deus aos que o amam (v. 12).

Meus queridos irmãos, não vos enganeis. Todo o dom precioso e toda a dádiva perfeita vêm do alto; descem do Pai das luzes, no qual não há mudança, nem sombra de variação. De livre vontade ele nos gerou, pela Palavra da verdade, a fim de sermos como que as primícias de suas criaturas (vv. 16-18).

O autor não quer que seus irmãos (na fé) se enganem. A serpente no paraíso venceu porque enganou, distorcendo a boa vontade de Deus (cf. Gn 3). Quando rezamos o Pai nosso, podemos confiar na “livre vontade” de Deus, boa para nós; que “não nos deixe cair em tentação, mas nos livre do mal” (cf. Mt 6,9-13).

O título “Pai das luzes (estrelas)” é surpreendente. Para os judeus, o normal é: “Senhor dos exércitos” (siderais; cf. Gn 2,1; Is 40,26). Sl 90,2 diz que o universo foi “gerado”. O autor da carta salienta “de livre vontade … pela Palavra da verdade”.

A Tradução Ecumênica da Bíblia (p. 2371) comenta: “Se ele é Pai das luzes, é também, ele próprio, luz (cf. 1Jo 1,5). O autor pretende excluir de Deus e de sua obra (cf. v. 13) todo dualismo, e subtraí-lo à divisão e à duplicidade que caracterizam o pecador (cf. v. 8; 4,4). É aquele que dá a quem pede (cf. v. 5; 5,15), sempre pronto a perdoar (5,11). Mas também é juiz (5,8-10; cf. 4,12) que dá o reino aos pobres submetidos às provações e pede contas aos ricos violadores de sua lei.”

Deus é Senhor (1,1) e Pai (1,27; 3,9), é o “Pai das luzes”, criador dos luminares celestes (Gn 1,14-18) e fonte de toda a luz espiritual (Jo 1,4; 8,12; 1Jo 1,5; cf. 1Pd 2,9). As imagens que seguem são sugeridas pelo movimento dos astros (var.: “no qual não existe nenhuma mudança proveniente do movimento da sombra”).

A Bíblia do Peregrino (p. 2895) comenta: Pai tem aqui um sentido fraco, de autor ou causa. Os astros têm fases de escuridão. “O que há de mais brilhante que o sol? Pois também ele tem eclipses” (Eclo 17,31). Deus não tem fase de escuridão, por isso pode enviar sempre sua luz benéfica. À imagem do “nascimento” do pecado e da morte se contrapõe o símbolo positivo, em que é Deus quem gera filhos, ou quem os adota (cf. Sl 2,7), pela pregação do evangelho (1Jo 3,1). “Primícias da criação” faz lembrar Pr 8,22 em grego. Pois bem, se somos seus filhos, ele nos concederá “coisas boas”, como diz Mt 7,11 par. Soou a palavra “mensagem” e retornará para ser completada.

Esta “Palavra da verdade” é o conjunto da revelação de Deus aos homens, a palavra criadora e os ensinamentos, o Evangelho (cf. 1Pd 1,23-24; Cl 1,15; Ef 1,13; 2Tm 2,15), mas também uma sabedoria de vida (cf. 3,14; 5,19) que o autor chama depois de “lei da liberdade”, “lei real” (cf. 1,21-25; 2,8.12). Enquanto a concupiscência gera a morte (vv. 14s), essa palavra faz com que os cristãos existam qual “primícias” de uma criação nova.

A Bíblia de Jerusalém (p. 265) comenta: Tiago não fala da “graça”, exceto em 4,6. Aqui menciona o seu equivalente neste novo nascimento, devido à palavra de Deus (Jo 1,12; 3,3; 1Pd 1,23) e que constitui o povo de Deus pelas sua “primícias” (cf. Dt 18,4; 1Cor 15,20; Rm 8,23; 16,5). Esta palavra é plantada nos corações (lit.: “inata”) pela pregação do evangelho que salva (v. 21) e pela fé, que é a aceitação deste anúncio (cf. 1Ts 2,13). São traços da catequese batismal.

 

Evangelho: Mc 8,14-21

Após os fariseus que exigiram um sinal (vv. 11-13, evangelho de ontem), agora são os discípulos acometidos de cegueira espiritual (vv. 14.21) que recebem as mesmas censuras (em forma interrogatória) do que os de fora em 4,12.

Em v. 13, Jesus deixou os fariseus e embarcou para uma travessia à outra margem. Durante esta travessia do lago, Mc coloca um diálogo áspero e enigmático. A Bíblia do Peregrino (p. 2416) comenta: Em plano superficial, está a preocupação dos discípulos por não terem levado provisões. A essa omissão pode responder o convite a confiar em Jesus, subindo a um plano superior. Mas essa não é a substância do diálogo, que não é instrução, mas aviso e repreensão dura, sem condescendência. O problema de fundo é a incredulidade, a incapacidade de compreender a revelação da pessoa e da missão de Jesus.

Os discípulos tinham se esquecido de levar pães. Tinham consigo na barca apenas um pão. Então Jesus os advertiu: “Prestai atenção e tomai cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes.” Os discípulos diziam entre si: “É porque não temos pão” (vv. 14-16).

Depois da segunda multiplicação dos pães (vv. 1-10) onde restaram sete cestos, os discípulos tinham consigo “apenas um pão” (v. 14). Pode ser uma alusão à Eucaristia, ou seja, basta ter Jesus consigo, não precisa se preocupar (cf. 4,35-41; 6,45-52). Além das travessias no lago, também as preocupações com a alimentação são motivos típicos em Mc (cf. 3,20; 6,31; 7,19).

Jesus alerta sobre o fermento dos fariseus e de Herodes (cf. o conjunto em 3,6). Aqui em Mc, o fermento não tem o mesmo sentido positivo como na parábola de Mt 13,33 e Lc 13,20s. A Tradição Ecumênica da Bíblia (p. 1941) comenta: O fermento era tido como fonte de impureza e corrupção (1Cor 5,6s; Gl 5,9) e para o rabinos, simbolizava as más inclinações do homem. No contexto de Mc, parece designar as más disposições, tanto dos fariseus (cf. 2,1-3,6; 7,1-13; 8,11-13) com o de Herodes (cf. 6,14-29). Os discípulos corriam risco de compartilhar essas más disposições, se se manifestassem rebeldes aos esforços de Jesus de lhes manifestar o sentido autêntico da missão à qual os queria associar.

Os discípulos são ainda como o povo néscio e sem juízo que os profetas Jeremias e Ezequiel criticam (Jr 5,21; Ez 12,2). O fermento dos fariseus é a tradição humana de observâncias (cf. 7,8-13), o fermento de Herodes é o poder sem moral. Esse é o fermento que corrompe (1Cor 5,7-8) e se contrapõe ao fermento do reino de Deus (Mt 13,33p).

Mas Jesus percebeu e perguntou-lhes: “Por que discutis sobre a falta de pão? Ainda não entendeis e nem compreendeis? Vós tendes o coração endurecido? Tendo olhos, vós não vedes, e tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais de quando reparti cinco pães para cinco mil pessoas? Quantos cestos vós recolhestes cheios de pedaços?” Eles responderam: “Doze.” Jesus perguntou: E quando reparti sete pães com quatro mil pessoas, quantos cestos vós recolhestes cheios de pedaços? Eles responderam: “Sete.” Jesus disse: “E vós ainda não compreendeis?”  (vv. 17-21).

Jesus faz lembrar as duas multiplicações dos pães, até os números (6,30-44; 8,1-10). As censuras dele aos discípulos sempre estão em forma de interrogações para estimulá-los. É mais um convite aos discípulos de irem além das suas preocupações materiais, para refletirem sobre o sentido da missão de Jesus iluminada pelos milagres. Estas palavras chamam atenção para tudo o que se revela da sua missão e da sua pessoa no decurso desta parte do livro, na qual se multiplicaram os sinais não compreendidos.

O quadro que o evangelista Marcos apresenta é pessimista até o final. Os discípulos não entendem. Mc não poupa os discípulos como os outros evangelistas fazem depois dele. É uma característica deste evangelho mais antigo, que os discípulos não compreendem os milagres de Jesus nem o sentido de suas palavras (cf. o segredo do messias e os anúncios da paixão a partir deste capítulo), reagem inadequadamente e recebem censuras. Em Mt e Lc, os apóstolos são descritos com bem mais respeito e devoção.

Ou Mc identifica certas atitudes da sua própria comunidade (e nossa?) com as dos discípulos e quer censurá-las, ou talvez tenha sido assim a atitude dominante dos discípulos durante a vida de Jesus: contemplaram milagres e não viram sinais, ouviram palavras e não escutaram uma mensagem, “têm olhos para ver e não veem, têm ouvidos para ouvir e não ouvem, pois são uma casa rebelde” (Jr 5,21; Ez 12,2; Is 6,9s; Mc 4,11s). Em semelhante atitude, não se projeta ainda a luz da ressurreição. Mas Jesus já fez um surdo ouvir (7,31-37) e fará ainda os cegos verem (em seguida: 8,22-25; 10,46-52).

No site da CNBB comenta-se: Todos nós temos uma hierarquia de valores que servem como critério para a nossa vida e tudo o que temos e fazemos está subordinado a essa hierarquia. A maioria das pessoas orienta a sua vida para a satisfação das suas necessidades primárias e instintivas. Assim, os seus valores principais são a comida, a bebida e o sexo, de modo que essas pessoas, apesar de civilizadas, possuem a mesma hierarquia de valores que os animais: buscam apenas a satisfação dos próprios instintos. Essas pessoas não aceitam a Jesus e criticam a sua doutrina porque a sua dependência aos instintos lhes cega a vista e endurece os seus corações, de modo que não podem compreender a verdadeira hierarquia de valores que Jesus veio trazer para que as pessoas não vivam instintivamente, mas tenham vida em abundância.

Voltar