MARIA, MÃE DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS DE JESUS CRISTO

14 de fevereiro de 2018 – Quaresma 4ª feira de Cinzas

Hoje se inicia a Quaresma, tempo propício de conversão e reconciliação. A palavra “agora” se destaca na 1ª e na 2ª leitura, como também a misericórdia/perdão e a graça/favor.

1ª Leitura: Jl 2,12-18

Na 1ª leitura, a liturgia nos apresenta uma convocação ao jejum no livro de Joel, escrito

talvez por volta de 400 a.C.. Naquela época, uma praga terrível de gafanhotos causou fome e terror entre os homens (1,4-12.15-20). Parecia-se como que o fim do mundo estivesse chegando. Será que o “dia de Yhwh (Javé)” (“dia do Senhor”, 1,15; 2,1) esteja perto, aquele dia da vingança, este acerto de contas, anunciado pelos profetas desde Amós (Am 5,18-20)?

”Agora”, diz o Senhor, “voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo”. Quem sabe, se ele se volta para vós e vos perdoa, e deixa atrás de si a bênção, oblação e libação para o Senhor, vosso Deus? (vv. 12-14).

Mesmo que o dia do julgamento esteja se aproximando como um poderoso exército inimigo invadindo e devorando a terra e a cidade (Jl 2,1-11), ainda há uma chance de voltar atrás (conversão), de voltar a Javé, porque “ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (v. 11; cf. Ex 34,6s; Sl 86,15; 103,8; 145,8; Jn 4,2; Ne 9,17).

Mas há de ser uma conversão sincera, inteira e não pela metade (cf. Is 22,12s; Jn 3,5): “Voltai para mim com todo vosso coração… rasgai o coração e não as vestes” (v. 12). Rasgar as vestes era um gesto de luto (Gn 37,34; 1Sm 4,12; 2Sm 1,11s; 3,31-35; 2Rs 2,12) ou ainda de desgraça ou profunda dor (Gn 37,29; 44,13; Js 7,6; Jz 11,35; 2Rs 18,37; 1Mc 3,37; 4,39; cf. Mc 14,63p). O interesse de Joel por estas manifestações religiosas está em contraste com a crítica do culto por outros profetas, como Amos, Oseias, Miqueias, Sofonias, Jeremias e o Terceiro Isaías que apelam para a prática da justiça (cf. Am 5,21-24; Is 58,3-7). Joel, porém, não pensa em rituais superficiais, mas na conversão do coração do povo inteiro (cf. Ez 11,19s; 36,26s). Deus quer o ser humano inteiro: “Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração” (Dt 6,5).

Conversão é reconhecer o que foi mal, arrepender-se e voltar atrás, para o bem. Se o povo se voltar a Deus (conversão), Deus pode voltar atrás e voltar-se para seu povo (perdão e bênção), cf. Ml 3,7: “Voltai a mim e eu voltarei a vós!”. A expressão de um possível arrependimento (voltar atrás do castigo) da parte de Javé Deus encontra-se também em Ex 32,14; 2Sm 12,22; Jn 3,9.  No AT, a “bênção” consiste principalmente na abundância de bens materiais e prosperidade agrícola (cf. 2,19-27; Dt 7,13-15; 28,-13). O ritual da “oblação e libação” consistia em farinha, óleo e vinho (cf. 1,9s.13).

A Nova Bíblia Pastoral (p. 1122) comenta: O nome Joel significa “Javé é El”, o Deus supremo. Não há nenhuma informação sobre a vida deste profeta. Mas, a partir dos seus escritos, nota-se que ele exerce alguma atividade no culto do templo (1,9.13-14.16; 2,15-17; 4,17-18.20)… É possível que o grupo de Joel seja o mesmo que está por trás do livro de Malaquias: os levitas.

Tocai trombeta em Sião, prescrevei o jejum sagrado, convocai a assembleia; congregai o povo, realizai cerimônias de culto, reuni anciãos, ajuntai crianças e lactentes; deixe o esposo seu aposento, e a esposa, seu leito (vv. 15-16).

“Tocai trombeta em Sião” (cf. v. 1; Nm 10,2-10). Já em 1,13s, o profeta chamou os sacerdotes e ministros para convocarem a comunidade inteira: “Santificai-vos, convocai uma assembleia sagrada, reuni os anciãos, todos os habitantes da terra”. Agora são convocados ao templo os israelitas de todas as idades, desde os anciãos até as crianças de peito, sem excluir os recém- casados, embora a lei lhes reserve um tratamento especial (cf. Dt 20,7; 24,5). Para jejuar, os antigos se revestiam de roupas simples, raspavam a barba, cobriam a cabeça de cinzas e se abstinham de alimentos e relações sexuais.

Chorem, postos entre o vestíbulo e o altar, os ministros sagrados do Senhor, e digam: “Perdoa, Senhor, a teu povo, e não deixes que esta tua herança sofra infâmia e que as nações a dominem.” Por que se haveria de dizer entre os povos: “Onde está o Deus deles?” Então o Senhor encheu-se de zelo por sua terra e perdoou ao seu povo (vv. 17-18).

O templo em Jerusalém tem três partes (cf. 1Rs 6): o átrio ou vestíbulo (ulam), o santuário (hekal), e o santíssimo (debir). A parte interior (debir; cf. 1Rs 6,16.19; 8,6), chamada “santíssimo”, era reservado para a arca da aliança (perdida ou destruída pelos babilônios em 586 a.C.; cf. Jr 3,16), só o sumo sacerdote podia entrar lá e só uma vez por ano (no dia do Perdão; Lv 16). Separada por uma cortina (ou véu, biombo; Ex 26,33; cf. Mc 15,38) havia a grande sala para o culto, chamada hekal ou “santuário”, com o altar do incenso (1Rs 6,20s), a mesa com os pães de oblação a proposição e a menorá (candelabro de sete velas). Só os sacerdotes podiam entrar. O povo judeu tinha acesso apenas ao átrio (ulam, cf. Ex 27,9-19), onde se queimava os sacrifícios no altar dos holocaustos e cantavam os cantores (cf. Ex ; Lc 1,9s.21s

Joel chama para a primeira parte, no átrio, “entre o vestíbulo e o altar” (cf. Ez 8,16; Mt 23,35; Lc 11,51), voltados para o santuário, os “ministros sagrados do Senhor” (cf. 1,13) que devem rezar, como antigamente Moisés conseguiu o perdão de Javé (cf. Ex 32,11-14), apelando à “herança” de Israel e ao questionamento das nações que diriam “Onde está o Deus deles”? (cf. Sl 42,4.11; 79,10; Mq 7,10; Ml 2,17).

“O Senhor encheu-se de zelo (ciúme) por sua terra”, isso implica que ele cuida dos habitantes da sua terra e perdoa “seu povo” (eleição, aliança) com o ardor que caracteriza um amor preferencial (Zc 1,14; 8,2; cf. Jo 2,17).

2ª leitura: 2Cor 5,20-6,2

No início do capítulo 5 desta carta, o apóstolo Paulo tratou sobre a esperança da glória depois da morte (vv. 1-10) e da nova situação dos cristãos já nesta vida: “Se alguém é cristão, é criatura nova. O que era antigo passou, chegou o novo” (v. 17). Isso é possível, porque “tudo é obra de Deus, que nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o mistério da reconciliação” (v. 18).

O termo “reconciliação” evoca uma lembrança histórica. Por ocasião da reconstrução da cidade de Corinto em 44 a.C, Julio César proclamara uma reconciliação acolhendo, de todo império, pessoas de passado comprometido, que se beneficiaram de uma anistia. Aqui a imagem é aplicada ao Cristo.

Somos embaixadores de Cristo, e é Deus mesmo que exorta através de nós. Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus (5,20).

Os inimigos de Paulo dizem que ele não é apóstolo (“enviado”) porque não foi testemunha ocular da vida terrestre de Jesus (cf. At 1,21s; 1Cor 15,8-10; 2Cor 10-12). No entanto, Paulo mostra que o Evangelho não é simples história de Jesus, mas anúncio da sua morte e ressurreição que restaura a condição humana, vence a alienação causada pelo pecado e inaugura nova era da reconciliação universal. Enquanto esperamos o dia da ressurreição, Deus escolheu apóstolos como seus “colaboradores” (6,1) e “embaixadores de Cristo” (5,20). Por meio deles, “em nome de Cristo”, Deus convoca as pessoas: “Deixai-vos reconciliar com Deus” (5,20).

Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus (5,21).

O homem em relação a Deus é pequeno, fraco e pecador, portanto ofensor, devedor e culpado. Como por si mesmo não pode reconciliar-se, compete a Deus reconciliá-lo consigo; ele o faz por meio de Cristo, que carregava as culpas dos outros (Is 53) para que sejam perdoados. “Aquele que não cometeu (lit. conheceu) nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós para que nós nos tornemos (lit. fossemos) justiça de Deus” (v. 21; cf. Gl 3,13; Rm 5,19; 8,3; 1Pd 2,24; 1Jo 3,5). “Deus o fez pecado”, o termo “pecado” pode ser entendido aqui no sentido de “sacrifício/vítima pelo pecado”, pois a mesma palavra hebraica pode ter estes dois significados (cf. Lv 4,1-5.13).

Nas liturgias penitenciais do AT (cf. Sl 50; 51; Is 1,10-20; Dn 9,7), um lado tem a justiça e a razão, outro tem a culpa e o pecado. Deus colocou Cristo, embora inocente, na parte do pecado em consequência como vítima expiatória. Desse modo, pelo perdão que Cristo conseguiu, estamos na parte da justiça. Deus tornou Cristo solidário com o gênero humano, a fim de tornar os homens solidários com a obediência e a justiça de Cristo (cf. vv. 14.19). A reconciliação é radical, é “nova criação“ (cf. Sl 51,12); é oferecida e comunicada pela mensagem apostólica e seu “ministério da reconciliação”. O homem simplesmente “se deixa” reconciliar (5,20), responde a oferta removendo obstáculos e aceitando-a com fé.

Como colaboradores de Cristo, nós vos exortamos a não receberdes em vão a graça de Deus, pois ele diz: “No momento favorável, eu te ouvi e no dia da salvação, eu te socorri”. É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação (6,1-2).

O pecado que remove o pecado, completa-se com a ”graça” que é a nova situação “favorável” Chegou o dia do grande jubileu do perdão das dívidas (Lv 25; Dt 15,1-11; Is 61,1; Lc 4,19); é preciso aproveitá-lo beneficiando-se dele. Paulo cita do segundo cântico do Servo em Is 49,8 que contém uma mensagem de reconciliação e repatriação (volta do exílio). Isso se cumpre plenamente em Cristo (o primeiro êxodo foi da libertação dos escravos, o segundo de Is do exílio aponta para o terceiro e definitivo: a libertação do pecado e da morte e a reconciliação definitiva com Deus).

Entre a época da primeira vinda de Cristo e a do seu retorno (1Cor 1,8; 2Cor 1,14; 1Ts 5,2; 2Ts 2,2) decorre um tempo intermediário (Rm 13,11), que é agora o “dia da salvação”. É um tempo concedido em visto da conversão, da salvação do resto de Israel e dos gentios. Não se sabe a duração, mas esse tempo de peregrinação deve ser considerado como breve (1Cor 7,26-31, cheio de provações e de sofrimentos que preparam a glória futura (Rm 8,11). Importa vigiar (1Ts 5,6) e fazer sábio uso do tempo que resta, para que salvemos a nós e também os outros (Gl  6,10), deixando Deus a tarefa da retribuição final (Rm 12,19; 1Cor 4,5).

 

Evangelho: Mt 6,1-6.16-18

O texto do evangelho neste primeiro dia da quaresma é tirado do sermão da montanha, no qual o evangelista Mateus compôs palavras de Jesus de maneira bem sistemática. Bem no centro deste sermão está a oração que Jesus nos ensinou: o “Pai Nosso” (vv. 7-15, omitido no texto litúrgico da hoje, mas lido na próxima terça-feira).

Em volta desta recomendação sobre a oração (vv. 5-6) estão agrupadas outra antes (sobre “esmolas”, vv. 2-4) e outra depois (sobre “jejuar”, vv. 16-18). Rezar, jejuar e dar esmolas são três exercícios espirituais do judaísmo e de muitas outras religiões.

Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus (v. 1).

O judeu-cristão Mateus nos apresenta o contraste entre a conduta dos “hipócritas nas sinagogas” e a de um verdadeiro cristão (“Tu, porém,…”). Entre os judeus, “hipócrita”, não é apenas um homem de piedade fingida e exibicionista, mas também de caráter pervertido e mau, o ímpio.

A conduta correta é chamada de “justiça”, desde o início do sermão (5,6.10.20). O princípio geral “de não praticar a vossa justiça na frente dos homens” parece contrariar o apelo de 5,16: “Brilhe a vossa luz diante do homem, para que vendo as vossas boas obras, eles glorifiquem vosso Pai que está nos céus.” Mas em 5,16, Mt fala da consequência, não da finalidade ou intenção deste exercício, e o resultado é o louvor a Deus, não ao homem. A intenção reta deve ser orientada para Deus, para que nossas boas obras recebam dele uma recompensa.

Por isso, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Ao contrário, quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita, de modo que, a tua esmola fique oculta. E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa (vv. 2-4).

A esmola é muito recomendada no AT (cf. Tb; Is 58,10; Sl 112,5.9; Pr 3,27; 19,17; Eclo 14,2-19), é um gesto de partilha, altruísmo, sinal da compaixão que busca a justiça relativizando o egoísmo da posse. Dar esmola para ser elogiado é esvaziá-la de sentido, é servir a si mesmo e, portanto, falsificá-la.

Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar em pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Ao contrário, quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa (vv. 5-6).

Na oração, o ser humano volta-se para Deus reconhecendo-o como único absoluto e reconhecendo a si mesmo como criatura dependente dele, relativizando a auto-suficiência. Por isso, rezar para ser elogiado pelos homens é colocar-se no centro, falsificando a oração. Não se trata aqui da oração comunitária que é necessariamente pública; muitos salmos concluem com louvor a Deus “perante a assembleia” (Sl 22,23), mas falam também de orar na cama (Sl 4,5; 77,2-5), por ex. súplicas de doentes (Sl 6; 38). Jesus fala antes da oração em particular. Deus não esta confinado no templo, mas presente em toda parte, embora oculto (Is 45,15; 26,20; 2Rs 4,33; Dn 6,11; Sl 139,2-3).

Quando jejuardes, não fiqueis com o rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade vos digo: Eles já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não vejam que tu estás jejuando, mas somente teu Pai, que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa (vv. 16-18).

Hoje é mais o médico e menos o sacerdote quem fala de jejum, e o recomenda. O jejum é bom para valorizar as coisas realmente necessárias, deixar o supérfluo e os vícios, tornar-se mais livre e menos dependente das coisas materiais. Jejuar é privar-se de algo imediato e necessário, a fim de ver perspectivas novas e mais amplas para sua vida (cf. o jejum de Jesus em 4,1-4p e dos discípulos em 9,14-17p; At 13,2), não fica dependente do materialismo e do consumismo. Orientado mais para o lado espiritual e social, o jejum apoia a oração, e os alimentos não consumados servem para dar mais esmolas. Jejuar para aparecer é perder o sentido espiritual.

Havia jejuns prescritos e voluntários, públicos por alguma calamidade (Jl 1,14; 2,12) e privados para a súplica (2Sm 12,16). Compare-se se o jejum ritual do dia da expiação (Lv 16,29-31) com a crítica de Is 58,1-7 (leitura da próxima 6ª feira; cf. Mt 25,31-46).

O site da CNBB comenta: O verdadeiro espírito de conversão quaresmal é aquele de quem não busca simplesmente dar uma satisfação de sua vida a outras pessoas para conseguir a sua aprovação e passar assim por um bom religioso, mas sim aquele que encontra a sua motivação no relacionamento com Deus e busca superar as suas imaturidades, suas fraquezas, sua maldade e seu pecado para ter uma vida mais digna da vocação à santidade que é conferida a todas as pessoas com a graça batismal, e busca fazer o bem porque é capaz de ver nas outras pessoas um templo vivo do Altíssimo e serve ao próprio Deus na pessoa do irmão ou da irmã que se encontram feridos na sua dignidade.

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