"Sal da Terra e Luz do Mundo”, Mt 5,13-14

14 de junho de 2018, quinta-feira: Elias disse a Acab: “Sobe, come e bebe, porque já ouço o ruído de muita chuva”

Leitura: 1Rs 18,41-46

No monte Carmelo, Elias venceu na disputa entre os deuses Baal, deus dos fenícios, e Javé, Deus de Israel. O Senhor Javé fez descer fogo sobre o altar e assim se mostrou o verdadeiro Deus que domina as forças da natureza. O povo de Israel agora o reconhece (18,20-40).

Elias disse a Acab: “Sobe, come e bebe, porque já ouço o ruído de muita chuva” (v. 41).

Elias ouve com antecedência a chuva anunciada pelo fogo do Senhor que desceu ao altar durante a disputa (v. 38). “Sobe, come e bebe”, alusão provável a uma refeição a uma refeição que se seguisse a um sacrifício. Haviam jejuado em preparação para o sacrifício e para obter a chuva.

Como o povo reconhece agora Javé como Deus verdadeiro, não há mais motivo de prolongar a seca que já dura três anos e meio (18,1; Lc 4,25). A ausência de chuva e de orvalho foi uma punição pela impiedade de Israel (cf. a maldição em Lv 26,18-20) e um sinal do Senhor Javé de que é ele, e não Baal (o deus estrangeiro da tempestade, chuva e fertilidade), quem concede a chuva necessária à vegetação e à vida (cf. Sl 104 etc.).

A seca (cf. 17,1) serviu para castigar a introdução do culto a Baal introduzido pela esposa do rei Acab, Jezabel, que era princesa de Sidônia na Fenícia (atual Líbano). Acab que governava o reino do Norte (Israel) em 873-853 a.C. tornou-se infiel a Javé, Deus de Israel, porque ergueu um templo dedicado a Baal na nova capital Samaria, construída por seu pai Omri (16,24.31-33).

Enquanto Acab subia para comer e beber, Elias subiu ao cume do Carmelo, prostrou-se por terra e pôs o rosto entre os joelhos. E disse ao seu servo: “Sobe e observa na direção do mar”. Ele subiu, observou e disse: “Não há nada”. Elias disse-lhe de novo: “Volta sete vezes”. É sétima vez o servo disse: “Eis que sobe do mar uma nuvem, pequena como a mão de um homem”. Então Elias disse-lhe: “Vai dizer a Acab que prepare o carro e desça, para que a chuva não o detenha”. Nesse meio tempo, o céu cobriu-se de nuvens escuras, soprou o vento e a chuva caiu torrencialmente (vv. 42-45a).

Elias sobe ao cume do monte para rezar (como Moisés em Ex 19,3.20; 24,2 etc., como Jesus em Mc 6,46p; Lc 9,28s). A prostração, gesto de deferência mais humilde e exigido em todas as cortes orientais (cf. 1,23; 2Rs 4,37), aos poucos torna-se gesto de adoração que se deve prestar somente ao verdadeiro Deus (cf. Ex 20,5; Est 2,2; 4,17d-o; Mt 2,11; 14,33; 28,17 etc.). Curvar-se por submissão, “pôr o rosto entre os joelhos”, é aumentar a intensidade da oração ao máximo para ser atendido. “Elias orou e o céu deu a chuva” (Tg 5,18). A “sétima vez” sinaliza o bom êxito de uma sequência (cf. 2Rs 5,14; Gn 2,2s; Ex 20,8-11 etc.).

“Prepare o carro e desça, para que a chuva não o detenha”. As primeiras chuvas do outono podem ser extremamente violentas e impedir a circulação.

Acab subiu para o seu carro e partiu para Jezrael. A mão do Senhor esteve sobre Elias; e ele, cingindo os rins, correu adiante de Acab até a entrada de Jezrael (vv. 45b-46).

“A mão do Senhor esteve sobre Elias”, a expressão designa a intervenção repentina de Deus sobre um profeta (cf. 2Rs 3,15; Ez 1,3; 2,22 etc.), a fim de fazê-lo falar e agir em seu nome. Aqui, Deus dá a Elias a força de percorrer de uma só vez os 27 km que se separavam o monte Carmelo de Jezrael. Elias parece movido pelo ímpeto do Espírito: atravessa a planície de Esdrelon, como arrebatado por um vento, mais veloz que o carro de Acab (cf. At 8,38-40).

Jezrael era então como uma segunda capital (além de Samaria) para os reis de Israel (21,1; 2Rs 8,29; 9,30s). Acab construiu sua residência de verão (cf. 21,1). Lá a rainha Jezabel morreria jogada pela janela numa revolta (2Rs 9,30-37; cf. 1Rs 21,23; 2Rs 9,10).

 

Evangelho: Mt 5,20-26

No sermão da montanha (cap. 5-7), Mt apresenta Jesus como novo Moisés que transmite a nova lei na montanha (vv. 1-2). Ele não veio para abolir a lei, mas para aperfeiçoar seu cumprimento (vv. 16-19, cf. leitura e comentário de ontem).

Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus (v. 20).

A lei não deve ser observada simplesmente por ser lei, mas por aquilo que ela realiza de justiça a fim de que o ser humano tenha vida e relações mais fraternas. Esta “justiça maior” não será um preceito exterior, será a prática do amor e da misericórdia, como Jesus resume toda lei na regra de ouro e no mandamento do amor a Deus e ao próximo (cf. 7,12 no evangelho de ontem e 22,34-40p; cf. Jo 13,34: Rm 13,8-10; Gl 5,14; Cl 3,14). Para Paulo, a justiça não vem da lei judaica, mas da fé: “Não tendo mais a justiça minha aquela que vem da lei, mas aquela quem vem de Deus e se baseia na fé” (Fl 3,9). Para Mt (e Tg), Jesus não dispensa a lei, mas a reinterpreta e cumpre plenamente no amor.

Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: “Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal”. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: “patife!” será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de “tolo” será condenado ao fogo do inferno (vv. 21-22).

Em 5,21-48, Mt apresenta seis exemplos em forma de antítese, para mostrar como é que uma lei deve ser entendida. Nas sinagogas se transmitia o ensino oralmente (“vós ouvistes”) ao povo simples. Na forma repetida da antítese “Vós ouvistes que foi dito aos antigos… Eu, porém, vos digo” (vv. 21-25.27-28.31-34.38-39.43-44), Jesus se apresenta como autoridade soberana, maior que Moisés.

A primeira antítese compreende duas partes: sobre o homicídio e sobre a reconciliação. O mandamento de “não matar” (lit. “não assassinar”; Ex 20,13; Dt 5,17; Lv 24,17) radicaliza-se na atitude interior (“cólera”, cf. Lv 19,17-18; Tg 1,19-20; Ef 4,26) de onde brota o homicídio (Gn 4,1-7; 37,4.8) e se estende a ofensas menores, ex. palavrões.

“Patife” (imbecil, cabeça vazia, inútil) e “tolo” (idiota, louco; insensato pode significar “ímpio” para judeus) são insultos graves que negam ao outro a capacidade de compreender: expressões de desprezo, rancor, inveja podem conduzir a ações graves.

“Condenado pelo tribunal” (vv. 21-22) faz alusão aos tribunais disseminados pelo país, em contraposição ao grande sinédrio (conselho) que tinha sua sede em Jerusalém. O tribunal local ou regional será a primeira instância, depois o conselho nacional, ao final o próprio Deus e o castigo será “o fogo do inferno” (v. 22; cf. 3,12), localizado na Geena (cf. Is 66,15.16.24, lugar associado no AT a sacrifícios humanos de crianças (cf. Jr 7,31).

Parece-nos um absurdo ser condenado ao inferno, só por ofender um irmão com uma única palavra. Mas Jesus quer levar ao absurdo a mania legalista dos fariseus de julgar (cf. 7,1-5). Quer chamar atenção sobre o fato de que o pecado começa já no próprio coração, e não só quando cometer um homicídio (cf. nosso ato penitencial “Confesso a Deus todo-poderoso que pequei por pensamentos e palavras, atos e omissões,…”). Sentimentos involuntários, porém, não são pecados; mas depende como lidamos com eles: devemos transformar os negativos em positivos, vencer o mal pelo bem (amar até os inimigos, cf. 5,43-48).

Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta (vv. 23-24).

O preceito negativo “não matar” estende-se a exigência positiva da reconciliação (vv. 23-26; Lc 12,58-59; cf. Mc 11,25), com ênfase em relação com o culto. É por isso que damos um “sinal de paz e reconciliação” e de “comunhão fraterna” na missa, antes de aproximarmo-nos do altar para receber a sagrada Hóstia e ter comunhão com Cristo.

Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. Em verdade eu te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo (vv. 25-26).

Mesmo ofendido e inocente, o discípulo de Jesus deve ter a coragem de dar o primeiro passo para reconciliação. Caso se sinta culpado, procure urgentemente a reconciliar-se, porque sobre a sua culpa pesa um julgamento. O ensinamento de Jesus poderia citar textos afins do AT (cf. Is 1,10-20; 58,1-12; Jr 7; Eclo 34,18-22).

O site da CNBB resume: Todas as pessoas costumam falar em justiça, mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça.

 

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