MARIA, MÃE DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS DE JESUS CRISTO

15 de fevereiro de 2018 – Quinta-feira, Quaresma – depois das cinzas

 

Leitura: Dt 30,15-20

Nas leituras de ontem, a palavra “agora” se destacou para não adiar a conversão.  Na leitura de hoje, destaca-se a palavra “hoje” (vv. 15.16.19).

A aliança oferecida por Deus “hoje” (vv. 15.16.19) deve ser aceita como ato livre, numa decisão radical (cf. Js 24). O povo deve tomar a decisão com plena consciência do conteúdo de suas consequências. A bênção para a fidelidade ao projeto de Javé, apresentado nas leis de Deuteronômio (“amando ao Senhor” vv. 16.20; cf. 6,5), trará justiça e prosperidade, saúde (vida longa), fecundidade e a posse da terra.

Chegando ao final do livro de Dt, Moisés convida o povo para tomar uma decisão; propõe dois caminhos, um leva à vida, outro à morte; um significa bênção, outro, desgraça e maldição (cf. vv. 15.19; 11,26-28; cap. 28; cf. Mt 7,13s no contexto do sermão da montanha):

Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça (v. 15).

A aliança, como as árvores do paraíso (Gn 2,9.17; 3,1-7.24), confronta o ser humano com o bem e o mal, a benção e a maldição, a vida e a morte, a felicidade e a desgraça (cf. 11,26-28; Eclo 15,4-17; Sl 7; Jr 21,8; Pr 8,34-35; Rm 6,21-23; Gl 6,8).

Para os israelitas, “a vida e a felicidade” estão ligadas a posse da terra, que significa qualidade de vida providenciada pela bondade de Deus. No entanto, nos séc. VI a.C., o povo de Israel perdeu sua terra, sua “herança” prometida desde os tempos de “Abraão, Isaac e Jacó” (v. 20; cf. Gn 15,18; 17,8;…). Longe da sua pátria, o povo encontra-se no exílio da Babilônia, onde os autores de Dt refletem. Como chegou a esta situação tão precária? Não se encontra de novo no lugar, onde já se estava uma vez, a dizer, além do Jordão antes de “entrar na terra” prometida (vv. 16.18)?

Se obedeceres aos preceitos do Senhor teu Deus, que eu hoje te ordeno, amando ao Senhor teu Deus, seguindo seus caminhos e guardando seus mandamentos, suas leis e seus decretos, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que vais entrar, para possuí-la (v. 16).

O autor deuteronomista fala de uma segunda declaração da vontade de Javé-Deus que confirma e renova a aliança do Sinai/Horeb. Esta segunda declaração se chama “Deuteronômio” (“segunda lei” em grego, cf. 17,18) e está situada na terra de Moab (28,69) ao lado oriental do Jordão. A conquista e a vida na terra (e a volta após o exílio) dependem da atitude que o povo tem diante do projeto de Deus.

Para o Dt é importante não só obedecer a leis e mandamentos de maneira exterior e superficial, mas “amando ao Senhor teu Deus” (vv. 16.20) de todo coração (cf. 6,4-5) o povo conseguirá a bênção: descendência numerosa e (nova) posse da terra (cf. as promessas a Abraão em Gn 12,1s; 13,14-16; 15,5; 17,4-7; 22,17s; cf. Gn 1,28; 9,1).

Se, porém, o teu coração se desviar e não quiseres escutar, e se, deixando-te levar pelo erro, adorares deuses estranhos e os servires, eu vos anuncio hoje que certamente perecereis. Não vivereis muito tempo na terra onde ides entrar, depois de atravessar o Jordão, para ocupá-la (vv. 17-18).

Se, porém, o povo se desviar e não escutar ao verdadeiro Deus da liberdade e da vida, “deixando-se levar pelo erro”, adorando ídolos (servir outros deuses e suas imagens, cf. 5,7-10; 7,14s; Ex 32), vai “perecer” na escuridão, no exílio, na morte (cf. a perspectiva do exílio em 4,21-31).

Tomo hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes, amando ao Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele – pois ele é a tua vida e prolonga os teus dias -, a fim de que habites na terra que o Senhor jurou dar a teus pais Abraão, Isaac e Jacó (vv. 19-20).

“Tomo hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós” (v. 19; 4,26; 31,28; 32,1). Céu e terra são as testemunhas legais de Deus; duas testemunhas são necessárias, mas estas compõem o universo todo (cf. Sl 50,4; Is 1,2). “Escolhe, pois, a vida” (v. 19) foi o lema da Campanha da Fraternidade 2008 sobre a defesa da vida que tratava, entre outras, as questões de aborto e eutanásia.

 

Evangelho: Lc 9,22-25

Já no início da caminhada da Quaresma indica-se o seu ponto final, a paixão e morte de Jesus e sua ressurreição. Depois da profissão de fé do apóstolo Pedro, “Tu és o Cristo de Deus” (v. 20), Jesus anuncia pela primeira vez seu sofrimento abertamente (veladamente já em 5,35; cf. 2,34s; 4,29s).

O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia (v. 22).

A expressão “Filho do homem” pode significar simplesmente “ser humano” (hebraico Ben Adam, “filho de Adão”, cf. Sl 8,5; Ez 2,1.3.6.8; 3,1 etc.), ou seja a condição humana de Jesus, correlativo de Filho de Deus. Por outro lado, este termo está associado à figura humana a quem Deus entrega seu reino no final dos tempos (depois de acabar com os reinos pagãos das bestas-feras, cf. Dn 7,13s). Por esta ambiguidade, Jesus se identifica com esta expressão e não se declara abertamente “messias” (rei ungido), porque não pode ser preso por ser um simples humano nem ser mal-entendido como messias guerreiro nacionalista.

Aqui Jesus junta a expressão apocalíptica “Filho do Homem” com a profecia de Is 53 sobre o “Servo de Javé” que morre para salvar seu povo dos pecados. Este texto sobre o sofrimento do messias (cf. Is 42,1; 61,1), chamado o quarto canto do Servo de Javé, e o ápice de Deutero-Isaias. Era usado muito no anúncio dos primeiros cristãos (citado em Mt 8,17; Lc 22,37; At 8,30-35; 1Pd 2,21-25; cf. Mt 26,28.63; 27,29-31.38s.60; Jo 1,29; 19,5 etc.) para identificar a paixão de Cristo (cf. Sl 22). É a 1ª leitura de Sexta-feira Santa.

“Ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e doutores da lei”; trata-se dos membros do grande Sinédrio, colégio de 71 membros (cf. Nm 11,24s), que governava o povo judeu e julgava como Tribunal Supremo. Havia representantes da aristocracia leiga (os “anciãos”), das grandes famílias sacerdotais (os “sumos sacerdotes”, entre os quais se elegia o Sumo Sacerdote), e dos escribas ou intérpretes da lei (“doutores da lei”, na maioria com tendência farisaica). O Sinédrio era presidido pelo Sumo Sacerdote em exercício (Caifás; cf. 3,2).

“Deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”, contando sexta-feira, sábado e domingo (o Tríduo Pascal da liturgia cristã começa na Quinta-feira Santa e termina no Domingo da Páscoa). O terceiro dia é tradicionalmente o dia da salvação e intervenção divina (cf. Gn 22,4; Ex 19,10s.16; Os 6,2; Jn 2,1; Est 5,1; Mt 12,40; Jo 2,1; 1Cor 15,4). Não diz aqui de que maneira Jesus será morto, mas o próximo versículo deixa claro que a pena de morte será a crucificação (v. 23).

Depois Jesus disse a todos: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me (v. 23).

Seguir o messias Jesus não é uma vantagem comercial (cf. 5,1-11), não é fazer carreira. Lc omitiu a incompreensão de Pedro (cf. Mc 8,32s) e passou logo a instrução de Jesus “a todos”. Tornar-se discípulo é “seguir” a Jesus, implica ir “atrás dele”, para onde quer que for, e se “desapegar da sua vida” (cf. vv. 57-61). Se a missão de Jesus o levar ao calvário, seus seguidores não hão de esperar coisa melhor para si. Trata-se de segui-lo e “renunciar a si mesmo”, aceitar e “tomar sua cruz”, ou seja, conforme os vv. 24-27, arriscar a própria vida pela causa de Jesus. Isto pode levar o discípulo ao sacrifício da própria vida, assim como a missão de Jesus o levou à cruz.

A morte de cruz era reservada a criminosos e subversivos. Quem “quer seguir” Jesus, esteja disposto a se tornar marginalizado por uma sociedade injusta (“perder sua vida”, v. 24) e mais, a sofrer o mesmo destino de Jesus: morrer como subversivo (“tomar sua cruz”).

Só o evangelista Lucas acrescentou “cada dia”, ou seja, a cruz não é só o martírio no final da vida, mas as provações de cada dia de quem precisa renunciar às tentações e os medos de perder alguma coisa.

O papa Francisco disse sobre este evangelho (em 06.03.2014): Não podemos pensar a vida cristã fora deste caminho. Existe sempre este caminho que ele fez primeiro: o caminho da humildade, o caminho também da humilhação, de aniquilar a si mesmo e depois ressurgir. O caminho é este. O estilo cristão, sem cruz, não é cristão, e se a cruz é uma cruz sem Jesus, não é cristã. O estilo cristão toma a cruz com Jesus e vai adiante. Não sem cruz, não sem Jesus.

Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará (v. 24).

A ganância e a preocupação pelo bem-estar material e passageiro podem resultar sufocando o bem espiritual (cf. 8,14p), ou seja, perder a vida eterna no reino de Deus, como Lc explicará depois, de maneira impressionante, em parábolas próprias sobre os ricos quando morrem (12,13-21; 16,19-31; cf. 6,20.24; Mc 4,18-19p; 10,17-31p; Am 5,4.6.14; Hab 2,4; Sl 49).

Quem vive buscando bens e riquezas, nunca ficará satisfeito. Quem se doa aos outros, esquece de si mesmo e sente uma grande felicidade (cf. At 20,35). A cruz, então, não é uma perda nem apenas um sacrifício. É o único modo para não perder a própria vida, não dissipá-la em coisas superficiais que não conduzem à felicidade. Diferente da sabedoria grega, não é a “vida” (em grego: zoé) na terra o bem maior, mas a “vida” transcendente (Lc usa a palavra grega psyqué) que depende do juízo final (v. 26, omitido na leitura de hoje).

Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo?” (v. 25).

Assediada com tanta propaganda consumista e atormentada no meio das crises financeiras e ecológicas, nenhuma geração antes de nós poderia entender melhor este versículo.

O site da CNBB comenta: O verdadeiro discípulo de Jesus é aquele que vive como o próprio Jesus e faz dele o modelo de sua vida. Jesus nunca viveu para si, mas sempre viveu para o Pai e para os seus irmãos e irmãs, fazendo do seu dia a dia um serviço a Deus e ao próximo. A exemplo de Jesus, nós devemos passar por esse mundo não para buscar a satisfação dos nossos interesses e necessidades, mas para deixar de lado tudo o que nos impede de ir ao encontro de nossos irmãos e irmãs que precisam de nós, da nossa presença e do nosso serviço, e que também nos impede de ir ao encontro do próprio Deus para vivermos com ele a sua vida.

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