MARIA, MÃE DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS DE JESUS CRISTO

16 de fevereiro de 2018 – Sexta-feira, Quaresma – depois das cinzas

 

Leitura: Is 58,1-9a

As leituras dos primeiros dias da Quaresma destacaram o amor a Deus; as dos próximos dias falam do amor ao próximo (cf. Mc 12,28-24p). Hoje e amanhã ouvimos uma exortação do Terceiro Isaias (Trito-Isaías, caps. 56-66), um profeta (ou grupo anônimo) na época da volta do exílio (cerca de 530 a.C.).

Através da voz do profeta, Deus fala sobre o jejum praticado. A acusação de Deus contra seu povo tem elementos típicos: invalidez do culto (vv. 2.5), denúncia de injustiças (vv. 4.6), preceitos específicos (vv. 6-7.9-10.13); exortação com promessas (vv. 8-9.11 12.14). A esse esquema sobrepõem-se a consulta religiosa e a resposta do oráculo (cf. um profeta contemporâneo, Ageu). Como em casos semelhantes (Sl 50; Is 1,10-20; Jr 7; Am 5,21-27), há uma tensão entre o culto litúrgico e a justiça social.

(Assim fala o Senhor Deus:) Grita forte, sem cessar, levanta a voz como trombeta e denuncia os crimes do meu povo e os pecados da casa de Jacó. Buscam-me cada dia e desejam conhecer meus propósitos, como gente que pratica a justiça e não abandonou a lei de Deus. Exigem de mim julgamentos justos e querem estar na proximidade de Deus: ‘Por que não te regozijaste, quando jejuávamos, e o ignoraste, quando nos humilhávamos?’ (vv. 1-3a).

Na linguagem deste profeta, denúncias fortes (cf. v. 1: “crimes”, cf. Mq 3,8) no estilo dos antigos profetas misturam-se com ensinamentos do estilo mais sapiencial. No dia do jejum litúrgico, a voz do profeta deve ressoar “como trombeta” (cf. Jl 2,15; Os 8,1; Sl 81,4).

Sete vezes se fala de “jejum/jejuar” nos vv. 3-6. Os homens o cumprem e esperam em troca bênçãos divinas que, aos olhos deles, tardam a manifestar-se (vv. 2-3a; cf. Mt 6,16-18).

É porque no dia do vosso jejum tratais de negócios e oprimis os vossos empregados. É porque ao mesmo tempo que jejuais, fazeis litígios e brigas e agressões impiedosas. Não façais jejum com esse espírito, se quereis que vosso pedido seja ouvido no céu. Acaso é esse jejum que aprecio, o dia em que uma pessoa se mortifica? Trata-se talvez de curvar a cabeça como junco, e de deitar-se em saco e sobre cinza? Acaso chamas a isso jejum, dia grato ao Senhor? (vv. 3b-5).

As celebrações e os dias de penitência que foram instituídos depois da destruição de Jerusalém se tornaram vazios; as pessoas só seguiam os rituais, mas seu coração estava nos negócios diários (v. 3). O jejum só era prescrito na Lei para o dia da expiação (Lv 23,26-32; cf. Lv 16), mas multiplicaram-se os dias de jejum, quer para comemorar aniversários de luto (Zc 7,1-5; 8,18-18), quer para implorar a misericórdia de Deus (Jl 2,12.15; Jn 3,5; cf. 1Rs 21,9.12).

A resposta do Senhor é irônica e desmascara a farsa piedosa: jejuar e tratar de negócios, e ainda oprimir os empregados. Esta exploração traz a dolorosa lembrança da opressão egípcia (Ex 3,7; 5,9.13-14) e é contra a lei (Dt 15,2). Mas o pedido que será “ouvido no céu” é a oração sincera (v. 4b.9; cf. Sl 5,4; 27,7; 55,18).

Acaso o jejum que prefiro não é outro: – quebrar as cadeias injustas, desligar as amarras do jugo, tornar livres os que estão detidos, enfim, romper todo tipo de sujeição? Não é repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres e peregrinos? Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne (vv. 6-7).

O jejum que o Senhor prefere é “quebrar as cadeias injustas”; quatro expressões de libertação em v. 6 demonstram como o dom da liberdade é mais bem apreciado depois da experiência do desterro (cf. Dt 15,12-15; Jr 34,8s).

Em vez de afligir-se a si mesmo (v. 5: jejuar, mortificar, curvar a cabeça) deve se sentir a aflição do próximo na cadeia, a miséria do pobre sem alimento, sem teto, sem roupas e partilhar com ele (cf. Mt 25,31-46).  Uns referem “a tua carne” que não se deve desprezar (v. 7) aos próprios parentes, para outros a carne designa a fraqueza e carência comum a todos. Não se deve desprezar a condição humana, a própria saúde e a dos outros (cf. St.º Irineu: “A glória de Deus é o ser humano vivo”).

O papa Francisco disse sobre este texto (em 07.03.2014): O cristianismo é a própria “carne” de Cristo que se inclina sem se envergonhar sobre quem sofre… Jejum que se preocupa com a vida do irmão, que não se envergonha – o próprio Isaías diz isto – com a carne do irmão… O ato de santidade de hoje, nosso, aqui, no altar, não é jejum hipócrita: é não se envergonhar com a carne de Cristo que vem hoje aqui! É o mistério do Corpo e do Sangue de Cristo, É ir dividir o opção com o faminto, curar os doentes, os idosos, aqueles que não podem dar-=nos nada em troca: isso é não se envergonhar com a carne!

Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá. Então invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, e ele dirá: “Eis-me aqui” (vv. 8-9a).

O jejum autêntico através destas obras de misericórdia transfigura o ser humano, devolve sua saúde e quase o diviniza, “como a aurora”, o sol que amanhece (v. 8; cf. Sl 112,4). A justiça abre seu cortejo “à frente”, e a “glória do Senhor” o encerra, “seguirá”. Pela caridade generosa, o ser humano resplandece, porque revela a glória de Deus (cf. Mt 5,16; 6,19-23).

Também hoje, qualquer ato de piedade ou devoção pode esconder um não-compromisso com a vontade de Deus. Ao contrário, a sinceridade da religião se revela através da solidariedade com os oprimidos, os pobres, os doentes, os presos etc., na participação afetiva de um processo de libertação. Só assim estamos procurando a Deus e recebemos dele uma resposta benévola: “Eis me aqui” (v. 9a; 52,6; 65,1). Alude ao possível significado do nome de Deus, Yhwh (Javé), em hebraico: “Eu estou aqui” (traduzido em grego: “Eu sou aquele que sou”; cf. Ex 3,14).

Na sua exortação apostólica “A alegria do Evangelho” (nº 49), Papa Francisco chama a Igreja “enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” quando não sai à procura dos pobres e outras pessoas fora dela. “Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres” (nº 48). Ele cita Tomás de Aquino: “O nosso culto a Deus com sacrifícios e com ofertas exteriores não é exercido em proveito dele, mas nosso e do próximo. Por isso a misericórdia, pela qual se socorre a miséria alheia, é o sacrifício que mais lhe agrada, porque assegura mais de perto o bem do próximo” (nº 37, rodapé 61).

Evangelho: Mt 9,14-15

As leituras e evangelhos da Quaresma parecem não seguir uma sequência, mas se relacionam em temas comuns, hoje sobre o jejum.

Os discípulos de João aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Por que razão nós e os fariseus praticamos jejuns, mas os teus discípulos não?” (v. 14).

Na comunidade judeu-cristã de Mateus, obviamente era costume de jejuar em certos dias (cf. 6,16-18), tradicionalmente praticado no judaísmo por lei ou por devoção, como expressão de arrependimento, humildade ou luto (cf. Zc 7,3-5 e a crítica na 1ª leitura de hoje: Is 58). João Batista com seus discípulos e os fariseus guardavam estes costumes, mas Jesus e seus discípulos não. Então os discípulos de João Batista se surpreenderam e querem saber o porquê. O Batista era um grande asceta, enquanto Jesus parecia um glutão e beberrão (cf. 11,18s).

Disse-lhes Jesus: “Por acaso, os amigos do noivo podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, sim, eles jejuarão” (v. 15).

Bem no estilo dos mestres do judaísmo (rabinos), Jesus responde com outra pergunta comparando-se com o noivo na festa de casamento (v. 15; cf. Ct 5,1). No AT, Javé Deus é o esposo de Israel com que selou aliança (cf. Os 2,16-25 etc.). O messias é o noivo (cf. Mt 22,1-14; 25,1-13), esposo da “nova aliança” (cf. 26,28p; Lc 22,20p).

João não é o messias nem o esposo (cf. Jo 3,28-29). Os discípulos de João Batista ainda estão na velha mentalidade da penitência e não descobrem que a festa já começou com Jesus (cf. 11,2-6; At 19,1-7). Mas “dias virão em que o noivo será tirado do meio deles” (v. 15b), ou seja, o fim trágico da morte de Jesus (cf. Is 53,8). É um anúncio, ainda indireto, da paixão (cf. Mt 2 que a prefigurou na perseguição por Herodes na infância; cf. Lc 2,34s; 4,29). “Então, sim, eles jejuarão” (v. 15c).

Na Igreja Católica, só existem dois dias de jejum prescrito e de abstinência (com isenção para crianças, doentes e idosos): a Sexta-feira Santa (em que o “noivo foi tirado”) e a Quarta-feira de Cinzas no início da Quaresma. Mas os quarenta dias da Quaresma e todas as sextas-feiras do ano são dias tradicionais para praticar certo jejum ou substituí-lo por outro sacrifício (oração, esmola, …). Os seis domingos da Quaresma, porém, não fazem parte dos quarenta dias de jejum (por isso, ao total, de quarta-feira de cinzas até domingo da páscoa são 46 dias, não 40) por causa da ressurreição “no primeiro dia da semana”.

O site da CNBB comenta: As práticas religiosas não podem ser simples ritualismos que cumprimos por costume ou tradição. Os fariseus e os discípulos de João faziam jejum, cumprindo os valores tradicionais da religiosidade de sua época, mas o cumprimento desses valores não lhes foi suficiente para que se tornassem capazes de reconhecer o tempo em que estavam vivendo e por quem foram visitados, de modo que não puderam viver a alegria de quem tem o próprio Deus presente em suas vidas e nem puderam usufruir de forma mais plena essa presença de graça. Somente quem viver uma verdadeira religiosidade que seja capaz de estabelecer um relacionamento profundo e maduro com Deus e perceber os seus apelos nos dos sinais dos tempos pode colher os frutos dessa religiosidade.

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