"Sal da Terra e Luz do Mundo”, Mt 5,13-14

16 de junho de 2018, sábado: O profeta Elias partiu dali e encontrou Eliseu, filho de Safat, lavrando a terra com doze juntas de bois; e ele mesmo conduzia a última. Elias, ao passar perto de Eliseu, lançou sobre ele o seu manto

Leitura: 1Rs 19,19-21

No monte Horeb, Deus ordenou a Elias para ungir Eliseu “como profeta no seu lugar” (v. 16). No livro 1Rs segue-se o relato da vocação de Eliseu, porém sem mencionar a unção que nunca se administrava a profetas (apenas a reis e sacerdotes, cf. comentário de ontem). Os vv. 19-21 provêm do ciclo de Eliseu (cf. 2Rs 2-8).

O profeta Elias partiu dali e encontrou Eliseu, filho de Safat, lavrando a terra com doze juntas de bois; e ele mesmo conduzia a última. Elias, ao passar perto de Eliseu, lançou sobre ele o seu manto (v. 19).

O lugar da origem de Eliseu é “Abel-Meula” (v. 16), significa em hebraico “Prado da Dança”, já era conhecido durante o reinado de Salomão (1Rs 4,12).

Em v. 11, Javé Deus “passou” diante de Elias (como antigamente diante de Moisés, cf. Ex 33,19.21; 34,6). Agora Elias, voltando fortalecido pela passagem do Senhor no Horeb, “passou perto de Eliseu, lançou sobre ele seu manto”, o mesmo manto que cobriu seu rosto na hora da passagem do Senhor (v. 13).

O manto parece representar a dignidade profética (2Rs 1,8.13s; cf. Mt 3,4p; 2Tm 4,13). O manto simboliza a personalidade e os direitos do seu dono. Além disso, o manto de Elias tem uma eficácia milagrosa (2Rs 2,8). Pensava-se outrora que as vestes, ou todos os objetos pertencentes a uma pessoa, representavam essa pessoa e conservavam alguma coisa de seu poder (cf. 2Rs 2,13s; 4,29-31; Mc 5,27s; 6,56; At 19,12): Elias, por gesto, dirigia uma vocação profética e Eliseu . Elias acolhe pessoalmente Eliseu. É uma escolha.

Então Eliseu deixou os bois e correu atrás de Elias, dizendo: “Deixa-me primeiro ir beijar meu pai e minha mãe, depois te seguirei”. Elias respondeu: “Vai e volta! Pois o que te fiz eu?” Ele retirou-se, tomou a junta de bois e os imolou. Com a madeira do arado e da canga assou a carne e deu de comer à sua gente. Depois levantou-se, seguiu Elias e pôs-se ao seu serviço (vv. 20-21).

Elias adquire assim um direito sobre Eliseu, que não pode se furtar. Eliseu entende que sua vida aqui é passagem, não sedentarismo. Destruindo seu arado e seus bois, exprime sua renúncia à sua condição anterior.  “Deu de comer à sua gente”, lit. ao povo. i. é. ao seu clã e à sua família. Este sacrifício é um sinal da entrada em seu ofício.

No NT, Jesus é mais do que Elias; por isso pode exigir um seguimento mais radical e urgente e não deixa voltar um discípulo para se despedir dos familiares: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o reino de Deus” (Lc 9,61s).

 

Evangelho: Mt 5,33-37

No sermão da montanha (cap. 5-7), Mt apresenta Jesus como novo Moisés que transmite a nova lei na montanha (vv. 1-2). Ele não veio para abolir a lei, mas para aperfeiçoar seu cumprimento (vv. 16-19).

Em 5,21-48, Mt apresenta seis exemplos em forma de antítese, para mostrar como é que uma lei deve ser entendida. Nas sinagogas se transmitia o ensino oralmente (“vós ouvistes”) ao povo simples. Na forma repetida da antítese “Vós ouvistes que foi dito aos antigos… Eu, porém, vos digo” (vv. 21-25.27-28.31-34.38-39.43-44), Jesus se apresenta como autoridade soberana, maior que Moisés. A primeira antítese foi sobre o 5º mandamento, a segunda e terceira foram sobre o 6º e 9º mandamento. A quarta que ouvimos hoje é sobre o juramento que se refere ao 2º e 8º mandamento.

Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: “Não jurarás falso”, mas “cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor” (v. 33).

Jesus cita livremente várias normas do AT (Lv 19,12; Nm 30,3; Dt 23,22). Para os judeus, jurar era permitido, até exigido em alguns casos (cf. Nm 5,19-22), mas a preocupação era evitar o nome de Deus (“não pronunciar o nome de Deus em vão” é o segundo mandamento em Ex 20,7) e um perjúrio (“não levantar falso testemunho” é o oitavo mandamento em Ex 20,16; cf. Jr 4,2) e cumprir os votos sagrados (cf. Sl 50,14). Já havia críticas a respeito da mania de jurar (Os 4,2; Eclo 23,9-11). A necessidade de juramentos é sinal de que a mentira e a desconfiança pervertem as relações humanas. Jesus exige relacionamento em que as pessoas sejam verdadeiras e responsáveis.

Eu, porém, vos digo: Não jureis de modo algum: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o suporte onde apóia os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do Grande Rei (vv. 34-35).

Para não pronunciar o nome de Deus, jurava-se invocando fórmulas substitutas, mas nem estas Jesus aceita: “nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o suporte onde ele apóia os pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande rei “(vv.34-35; cf. Is 66,1: Sl 48,3; Mt 23,16-22).

Não jures tão pouco pela tua cabeça, porque tu não podes tornar branco ou preto um só fio de cabelo (v. 36).

A grandeza e majestade de Deus contrastam com a fraqueza e impotência do homem (cf. 6,27.34; 10,30).

Seja o vosso “sim”: “Sim”, e o vosso “não”: “Não”. Tudo o que for além disso vem do Maligno (v. 37).

Jesus é categórico: “Seja o vosso “sim”, “sim e o vosso “não”, “não”” (v. 37). Essa fórmula já se encontra em 2Cor 1,17-19 e Tg 5,12; pode-se entender como veracidade (se é sim, diz “sim”; se é não, diz “não”) ou como sinceridade (que e vosso sim ou não dos lábios corresponda ao sim ou não do coração) ou como solenidade (a repetição do sim ou do não seria uma forma solene de afirmação ou de negação, que deveria bastar, dispensando o recurso a um juramento que envolvia a divindade).

O final da sentença, “tudo o que for além disso virá do maligno”, demonstra que Jesus, em Mt, não quer mesmo qualquer juramento. No seu processo diante do sinédrio, evita o juramento para declarar sua filiação divina, respondendo ao sumo sacerdote: “Tu o disseste” (26,63-64). Mas há outros trechos no NT a respeito: o autor de Hb 6,13-18 lembra do juramento do próprio Deus a Abraão (“juro por me mesmo”, Gn 22,16-17). O apóstolo Paulo também jurava várias vezes, invocando Deus como testemunha da sua evangelização (Rm 1,9; 2Cor 1,23; Gl 1,20; Fl 1,8; 1Ts 2,5).

Na história da Igreja, juramentos foram se introduzindo mais e mais com a aliança de Igreja e Estado desde Constantino: juramentos da bandeira pelos soldados, juramento de lealdade pelos funcionários. Então a Igreja preocupava-se em substituir os juramentos pagãos por fórmulas cristãs. S. Bento proibiu ainda o juramento na sua regra, mas S. Tomás de Aquino proibiu só juramentos sem necessidade e sem cautela. Lutero, distinguindo dois reinos (mundo civil, igreja), declarou que juramentos mandados não são atingidos por Mt 5,33. Na prática, os protestantes aceitam jurar numa das condições seguintes: assunto importante; a honra de Deus está no jogo; pelo bem do próximo ou mandado pela autoridade. Na Igreja Católica, basta olhar no índice do Código do Direito Canônico (13 itens a respeito) para ver o quanto a proibição de juramento por Jesus perdeu importância na própria Igreja.

O site da CNBB comenta: Vós ouvistes o que foi dito aos antigos… Eu, porém, vos digo. Quem quer conhecer verdadeiramente Jesus não pode se contentar com as coisas antigas, mas deve buscar sempre a novidade do Evangelho. Isso significa que até mesmo o Evangelho não pode tornar-se antigo, tornar-se uma narrativa de fatos passados. O Evangelho deve ser para nós sempre uma novidade, um desafio à descoberta de novos valores que devem marcar a nossa vida e renovar a nossa comunidade e a nossa sociedade. A novidade do Evangelho é sempre atual e insuperável, e aponta para todos nós novos caminhos que devem ser trilhados a fim de que consigamos uma maturidade cada vez maior na fé.

 

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