16 de agosto de 2016 – 20ª semana 3ª feira

Leitura: Ez 28,1-10

Os oráculos de Ezequiel contra a nações pagãs estão agrupados à parte, nos caps. 25-32 (cf. Am 1-2; Is 13-23; Jr 47-51). A leitura de hoje é sobre Tiro, cidade poderosa dos fenícios no litoral do Líbano e aliada desde o tempo de Davi e Salomão (cf. 2Sm 5,11s; 1Rs 5,15-31; 9,10-14.16-28). Os fenícios inventaram o alfabeto, dominaram o mar mediterrâneo e fundaram, a partir de Tiro, a cidade de Cartago (814 a.C.; atual Tunis), futura rival de Roma.

Na época de Ezequiel, no início do séc. VI a.C. era importante centro comercial, teve participação importante em todas as tentativas anti-babilônicas que precederam a destruição de Jerusalém em 587, mas abandonou Jerusalém, sua aliada, e regozijou-se com sua queda, pois com isso aumentou sua influência e seu controle de comércio e na região.

Em Ez 28 seguem-se dois oráculos, o primeiro é uma sentença judicial típica, delito e pena, o segundo é uma lamentação em vv. 11-19 (omitida pela nossa liturgia), ambos dirigidos ao príncipe ou rei de Tiro. Era então Etbaal II (573-564 a.C., Eth-Baal significa “com Baal”; não confundir com Etbaal I, rei de Sidonia e Tiro, o pai de Jezabel, esposa do rei Acab de Israel). Contudo, o poema dirige-se menos a um personagem histórico do que a uma personificação da potência da cidade.

Por uma acomodação espontânea, a tradição cristã aplicou com frequência este poema à queda de “Lúcifer” (cf. 28,2; Is 14,12s). A palavra latim Lucifer designa o planeta Venus, a “estrela d’alva” que precede a luz do sol; o NT o aplica a Cristo (2Pd 1,19; Ap 22,16). Pela combinação da queda de reis pagãos que eram como a “estrela alva” (Is 14,12) ou um “querubim protetor” (Ez 28,19) com a queda de Satanás (Lc 10,18; Ap 12), os cristãos o aplicaram a Satanás. A queda de Satanás não se encontra no AT, apenas nos livros apócrifos da Vida de Adão e Eva e de Henoc (cf. Gn 6,1).

Em Ez 28 não se trata de um personagem concreto, mas da encarnação da monarquia numa figura típica, como a Babilônia de Is 14. Por seu caráter típico, valerá mais tarde como símbolo universal. A queda do rei de Tiro se apresenta como a de Adão e Eva (cf. Gn 2-3): a pretensão à igualdade divina (v. 2), a sabedoria como motivo de autossuficiência (vv. 3-4), a ameaça de morte (v. 8), o jardim de Éden e a criação (v. 13), o querubim guardião (v. 14), a degradação (v. 16). Penetrando nas origens profundas do pecado, a reflexão bíblica descobre ali uma sutil pretensão à igualdade com Deus. A arrogância de se considerar deus produz injustiça, violência e opressão.

A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: ”Filho do homem, dize ao príncipe da cidade de Tiro: Assim fala o Senhor Deus: Porque o teu coração se tornou orgulhoso, tu disseste: ‘Eu sou um deus e ocupo o trono divino no coração dos mares’. Tu, porém, és um homem e não um deus, mas pensaste ter a mente igual à de um deus (vv. 1-2).

Na frase ressoa algo do cerimonial da corte, recolhido e adaptado em Sl 2; 45; Is 9. Ezequiel dá à expressão toda a sua força blasfema (cf. a réplica de Is 31,3). “Pensaste ter a mente igual à de um deus”, lit.: Deste o teu coração como o coração dos deuses. A frase fica suspensa; a sequência do raciocínio recomeça no v. 6; nossa liturgia traduz “coração” por “mente”, já que na Bíblia o coração é o centro da pessoa, de suas reflexões e decisões.

Sim, tu és mais sábio do que Daniel! Segredo algum te é obscuro (v. 3).

“Daniel” já foi mencionado em 14,14 e tem nada a ver com o herói do livro bíblico do mesmo nome. Seu nome significa: Deus julga. Julgar retamente é ato de sabedoria (cf. Salomão em 1Rs 3,16-28). Mas aqui se fala de outras habilidades; trata-se provavelmente de uma figura lendária cananeia, o célebre justo da tradição fenícia referida pelos textos mitológicos de Ugarit.

“Segredo algum te é obscuro”, segundo o texto hebraico; o texto grego traz: “nenhum sábio há que se iguale a ti”.

Com talento e habilidade adquiriste uma fortuna, acumulaste ouro e prata em teus tesouros (v. 4).

O versículo resume o capítulo precedente.

Com grande tino comercial aumentaste tua fortuna, e com ela teu coração se tornou soberbo. Por isso, assim diz o Senhor Deus: Por teres igualado tua mente à de um deus, vou trazer contra ti os povos mais violentos dos estrangeiros. Eles puxarão suas espadas contra a tua bela sabedoria e profanarão o teu esplendor (vv. 5-7).

Os povos trazidos para a destruição são como bárbaros que não respeitam beleza nem riqueza, como em Is 13,17. O rei babilônico Nabucodonosor iniciou a cerca de Tiro em 585 a.C. o qual durou treze anos, até 572, e levou Tiro e a cidades costeiras a ficarem gravemente enfraquecidas (29,17-21), Tiro se rendeu em 568. Historicamente, Tiro foi devastada mais tarde por Alexandre Magno em 332 a.C.

Eles te farão baixar à cova, e morrerás de morte violenta no coração dos mares. Porventura, ousarás dizer: Sou um deus! na presença de teus algozes, tu que és um homem e não deus, nas mãos dos que te apunhalam? Morrerás da morte dos incircuncisos, pela mão de estrangeiros, pois fui eu que falei – oráculo do Senhor Deus” (vv. 8-10).

A destruição da cidade e sua descida a “cova” (a “morada dos mortos”, cf. 32,18; Is 14,11) são descritas como castigo de Deus que coloca “a cova” no coração dos mares (cf. Jn 2).

“Morrerás de morte violenta” (v. 8), lit. (como) a morte do traspassado; pode-se entender “vergonhosa”, que profana (v. 7), ou de “apunhalados”, sentenciados (v. 9); o adjetivo tem o som parecido com riqueza. “Morrerás da morte dos incircuncisos” (v. 10); não se sabe a modalidade dessa morte, considerada especialmente vergonhosa pelos israelitas.

A Bíblia do Peregrino (p. 2084) comenta: O peculiar deste julgamento é que, não contente com enunciar o delito, analisa o processo psicológico. Começa a habilidade mercantil, que produz e acumula riquezas, das quais nasce a presunção, até a arrogância de se considerar deus. Pode-se comparar com o processo analisado em Dt 8 (Santo Inácio indica: riquezas, honra vã do mundo, soberba desmedida). À presunção segue-se a queda (Pr 18,12); outro povos serão executores. No momento da execução, o juiz dirige ao réu uma pergunta irônica: a morte devolve ao deus presumido a sua dimensão humana; compara-se com o Sl 82.

 

Evangelho: Mt 19,23-30

Mt copiou de Mc 10 as instruções de Jesus sobre família, crianças e bens. Hoje o Evangelho demonstra a reação de Jesus a respeito da vocação fracassada de um jovem apegado demais aos bens materiais (19,16-22; evangelho de ontem).

Jesus disse aos discípulos: “Em verdade vos digo, dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus (v. 23).

Em Mc 10,23-24, Jesus expressa sua decepção falando a mesma frase duas vezes, em Mt só uma vez, mas transformada em declaração solene: “Em verdade vos digo…”.

“Entrar no reino de Deus” significa aqui o mesmo da pergunta anterior do jovem, “ganhar a vida eterna” (v. 17; cf. 18,8p).

E digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus” (v. 24).

No AT, a riqueza pode ser vista como benção (cf. Jó 1), mas também como tentação e empecilho a verdadeira felicidade (cf. Pr 11,28; Eclo 31,1-11). Não devemos atenuar aqui o contraste trocando a palavra camelo por cámilo (corda de navio) ou aludir a um portal estreito no muro de Jerusalém com o nome camelo. Já os rabinos e outros autores da época conheciam as comparações absurdas do elefante e da agulha ou do contraste da formiga e do camelo.

Na história da igreja havia interpretações diversas. No evangelho apócrifo dos Nazarenos (séc. II na Síria), o jovem rico é visto como hipócrita: como pode dizer que “cumpriu” todos os mandamentos que Jesus indicou (Mt 9,18-20), se está na lei: “Amarás o próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18)? Aludindo à vida comunitária dos primeiros cristãos (cf. At 2,44-45; 4,32-37), Clemente de Alexandria (150-215) diz: “Todas as coisas são propriedade comum, e os ricos não devem querer mais para si do que para os outros”. São Tomás de Aquino (1225-1274) assegura o direito à propriedade particular, no entanto, todas propriedades têm obrigações sociais (e ambientais, acrescentamos hoje; cf. na Encíclica do Papa Francisco, Laudato Si, n.º. 93-95).

Ouvindo isso, os discípulos ficaram muito espantados, e perguntaram: “Então, quem pode ser salvo?” Jesus olhou para eles e disse: “Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível” (vv. 25-26).

Os discípulos espantados fazem uma pergunta semelhante à do jovem em v. 17, só desta vez generalizada. Riqueza e outros poderes do mundo seduzem o homem e se opõem ao reino de Deus. No reino de Deus, tudo deve ser partilhado entre todos; o que humanamente é difícil ou “impossível”, portanto, precisa da ação de Deus. Mais uma vez Jesus orienta para a bondade de Deus (cf. v. 17). Só Deus é bom e pode superar todos os obstáculos: “Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível” (v. 27; cf. Gn 18,14; Jó 42,2; Zc 8,6; Lc 1,37). Assim a preocupação do homem passa do material para o espiritual, da dependência do dinheiro para gratuidade (graça) de Deus.

Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: “Vê! Nós deixamos tudo e te seguimos. O que haveremos de receber?” (v. 27).

Em todas as suas perguntas, Pedro fala em nome de todos os discípulos. Pedro era proprietário de uma casa em Cafarnaum (8,14) que deixou somente para ir a Jerusalém e na sua viagem missionária. A pergunta pela recompensa é comum no judaísmo (cf. 6,1-18). A estrutura lembra 18,22-35: pergunta de Pedro, resposta direta de Jesus e, em seguida, uma parábola (20,1-16) para aprofundar o assunto.

Jesus respondeu: “Em verdade vos digo, quando o mundo for renovado e o Filho do Homem se sentar no trono de sua glória, também vós, que me seguistes, havereis de sentar-vos em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel (v. 28).

Solenemente (“em verdade vos digo”, cf. v. 23) Jesus promete recompensa para seus seguidores. Mt salienta: quem se engaja completamente no seguimento de Jesus, participará como juiz, quando a história for julgada. Na renovação do mundo (cf. Is 65,17; 66,22; Ap 21,5), quando Jesus glorificado ocupar seu trono real (Sl 110,1) como rei e juiz (25,31), também os doze apóstolos (cf. 10,2) atuarão como juízes, julgando as doze tribos de Israel, que não tiveram aceito Jesus como Messias (cf. Lc 22,28s, da fonte Q). Na literatura sapiencial e apocalíptica esperava-se a participação dos justos no juízo final (Sb 3,8; Dn 7,22 LXX).

E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna (v. 29).

Depois Jesus se refere a todos os seguidores prometendo que receberão “cem vezes mais” (cf. 2Sm 24,3; 1Cr 21,3) e terão “como herança a vida eterna” (cf. 5,5; 25,34); consequência da generosidade de Deus que já começa aqui com a nova família cristã (com seus irmãos e irmãs em 12,46-50) que é a comunidade cristã, a Igreja e sua fraternidade.

Muitos que agora são os primeiros serão os últimos. E muitos que agora são os últimos serão os primeiros (v. 30).

No juízo, não se espera apenas recompensas, mas a inversão de valores. Os critérios são de Deus, não dos homens. Esta sentença já introduz a parábola seguinte (20,1-16; evangelho de amanhã).

O site da CNBB comenta: A nossa vida é condicionada por muitos fatores que marcam a natureza humana decaída por causa do pecado. Esses fatores, em geral, nos afastam de Deus e nos impedem de viver plenamente a proposta do Evangelho. A maior dificuldade para superarmos esses fatores se encontra no fato de que nós somos seres naturais, portanto submissos às leis da natureza decaída de modo que para nós isso é impossível. Mas Jesus nos diz no Evangelho de hoje: “Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível”. Somente confiando plenamente na graça divina e procurando corresponder a ela é que poderemos viver o Evangelho apesar das nossas fraquezas e dos desafios que a vida nos impõe.

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