MARIA, MÃE DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS DE JESUS CRISTO

08 de janeiro de 2018 – Quinta-feira, 5ª semana

 

Leitura: 1Rs 11,4-13

Como outras grandes figuras da Bíblia, Salomão era homem e, portanto, pecador. Depois de tantas glórias e elogios de Salomão nos primeiros dez capítulos, o cap. 11 recorda as sombras do reinado, uma série de revessos políticos que parecem desmentir sua sabedoria e justiça no governo. Trata-se de três rebeliões e da notícia do pecado de Salomão na juventude, mas suas consequências se manifestam na velhice. Os vv. 1-3 (omitidos pela leitura de hoje) nos informam, que Salomão “se apaixonou por muitas mulheres estrangeiras, além da filha de Faraó” (v. 1; cf. 3,1), “teve 700 esposas e 300 concubinas” (v. 3). Estes números, no total de mil, número simbólico, parecem ter sido ampliados pela tradição, a fim de aumentar ainda mais a reputação do rei (cf. Ecl 2,8; Eclo 47,19). Mas esses contatos punham em perigo a pureza do javismo (fé no único Deus Javé). O autor interpreta os fatos no espírito e estilo do Dt: trata-se de infidelidade religiosa que Deus castiga suscitando inimigos no exterior (vv. 14s) e no interior (vv.  26s).

A Nova Bíblia Pastoral (p. 381) comenta: O exagerado número de mulheres quer representar o enorme poder atribuído a Salomão. Quando um reino conquistava oro, o fato era selado com o casamento do rei com a princesa do povo conquistado. As concubinas foram compradas ou trocadas por tributo. Essa situação foi relida no pós-exílio, quando se atribuía às mulheres estrangeiras e seus cultos a culpa pela queda do reino (cf. Ex 34,11-16; Esd 9-10; Ecl 47,19-20).

Quando Salomão ficou velho, suas mulheres desviaram o seu coração para outros deuses e seu coração já não pertencia inteiramente ao Senhor, seu Deus, como o do seu pai Davi (v. 4).

O pecado capital é a idolatria (cf. 1º mandamento: Ex 20,3; Dt 5,7); o germe e a ocasião são os casamentos com estrangeiras. O Deuteronômio (como depois Esdras e Neemias) proíbe tais casamentos “mistos” exatamente para evitar esse perigo (Dt 7,3; cf. Esd 9-10; Ne 13) quanto à proibição de aliar-se às nações, cf. Ex 23,32s; 34,12-16; Dt 7,1-4; Js 32,12). Mas também Davi (como Moisés, cf. Nm 12) casou-se com estrangeiras, e o autor não protestou por isso. Tais casamentos eram em boa parte atos políticos que contribuíram para a paz do reino e para o prestígio do soberano. O autor recolhe o fato de fontes fidedignas e acrescenta sua interpretação explícita (escreve “abominação” em vez da nossa tradução “ídolo” nos vv. 5.7).

Salomão prestou culto a Astarte, deusa dos sidônios, e a Melcom, ídolo dos amonitas. Ele fez o que desagrada ao Senhor e não lhe foi inteiramente fiel, como seu pai Davi. Foi então que Salomão construiu um santuário para Camos, ídolo de Moab, no monte que está defronte de Jerusalém, e para Melcom, ídolo dos amonitas. Fez o mesmo para todas as suas mulheres estrangeiras, as quais queimavam incenso e ofereciam sacrifícios aos seus deuses (vv. 5-8).

Moab, Amon e Edom eram reinos vassalos (ao leste, atual Jordânia), herdados de Davi; o Egito e Tiro (cidade fenícia no atual Líbano) eram reinos aliados; os heteus (hititas, povo indo-europeu) eram grupos de população dispersos entre outros reinos da época. Muitas das esposas de Salomão deviam ser de primeira categoria, provavelmente de sangue real. Não é estranho que elas trouxessem seu séquito e sua religião; não parece que tivesse uma conversão formal delas ao Deus de Israel, Javé. Teriam “liberdade de culto” em Jerusalém, seus santuários poderiam ser visitados e utilizados pelos mercadores de diversos países que acorriam a cidade; e não faltariam israelitas que participassem desses cultos também. Salomão “fez o que desagrada ao Senhor” (lit. “fez o mal aos olhos do Senhor”, fórmula frequente nos livros de Reis).

A deusa da fecundidade era “Astarte” para os cananeus (das cidades fenícios de Tiro e Sidônia), e também para os filisteus (cf. 1Sm 31,10); às vezes, foi confundida com Asera, esposa de Baal. À Astarte se prestava culto e até prostituição sagrada em “lugares altos” (cf. 2Rs 23,13). Para os babilônios era “Ishtar”, identificada com o planeta Vênus, a “rainha dos céus” (cf. Jr 7,18). “Melcom” (grego) ou “Meloc” (hebraico) é o deus nacional dos amonitas (Jr 49,1-3; 2Sm 12,30 grego); Camos é um deus dos moabitas (Nm 21,29; Jr 48,46).

Então o Senhor irritou-se contra Salomão, porque o seu coração tinha-se desviado do Senhor, Deus de Israel, que lhe tinha aparecido duas vezes e lhe proibira expressamente seguir a outros deuses. Mas ele não obedeceu à ordem do Senhor (vv. 9-10).

Ao que parece, também o próprio rei Salomão caiu no laço para agradar as suas mulheres. Essa forma de sincretismo divide o coração do homem, impede de seguir “plenamente” o Senhor e viola o primeiro mandamento da lei: “Não tenhas outros deuses fora de mim” (Ex 20,3; Dt 5,7; 6,4s). Apesar de Javé Deus “lhe tinha aparecido duas vezes” (em 5,5 no sonho no lugar alto de Gabon, atendendo ao pedido do rei por sabedoria; e em 9,2 no templo, repetindo a promessa da dinastia perene, mas advertindo do futuro destino do exílio), Salomão “não obedeceu à ordem do Senhor”.

E o Senhor disse a Salomão: “Já que procedeste assim, e não guardaste a minha aliança, nem as leis que te prescrevi, vou tirar-te o reino e dá-lo a um teu servo. Mas, por amor de teu pai Davi, não o farei durante a tua vida; é da mão de teu filho que o arrebatarei. Não te tirarei o reino todo, mas deixarei ao teu filho uma tribo, por consideração para com meu servo Davi e para com Jerusalém, que escolhi” (vv. 11-13).

O autor introduz uma condenação na forma de oráculo profético, segundo o esquema clássico: denúncia do pecado – anúncio do castigo (cf. Samuel ao rei Saul em 1Sm 15,28); a limitação da pena é um dado específico (cf. Natã ao rei Davi em 2Sm 12,13s). Com esse recurso literário o autor quer dar aos fatos históricos uma interpretação “profética” da perda do reino do Norte (dez tribos) depois de Salomão (cf. cap. 12, leitura de amanhã). Mas Deus é fiel às suas promessas, “uma tribo”, a de Judá com sua capital Jerusalém (escolhido por Davi, cf. 2Sm 5; mas também por Deus, cf. Dt 12,4) permanecerá com a dinastia de Davi.

 

Evangelho: Mc 7,24-30

Ouvimos hoje de uma segunda viagem ao exterior (cf. a primeira na região da Decápole em 5,1-20). É significativo, que depois de romper com as tradições judaicas (cf. 7,1-23), Jesus se dirija a território pagão.

Jesus saiu dali e foi para a região de Tiro e Sidônia. Entrou numa casa e não queria que ninguém soubesse onde ele estava. Mas não conseguiu ficar escondido (v. 24).

A Galileia confina ao norte com a Fenícia, com a região das cidades de Tiro “e de Sidônia” (acréscimo, cf. Mt 15,21). Estas duas cidades litorâneas já foram acusadas no Antigo Testamento (AT) por causa da sua riqueza e soberba (cf. 11,21s; Is 1,9s; Lm 4,6-16; Ez 16,46-56).

Mc não fornece motivo algum para esta viagem (como em Mc 4,35; 5,1). O incógnito exclui intenção missionária; como que afastando-se da multidão, Jesus busca ocultação; na realidade, como se vê depois, para oferecer aos pagãos seu poder e bondade sem fronteiras. Em outra chave está refazendo a viagem do profeta Elias a Fenícia (1Rs 17).

Uma mulher, que tinha uma filha com um espírito impuro, ouviu falar de Jesus. Foi até ele e caiu a seus pés. A mulher era pagã, nascida na Fenícia da Síria. Ela suplicou a Jesus que expulsasse de sua filha o demônio (vv. 25-26).

Como Elias em 1Rs 17,9-24, Jesus se defronta com uma mulher pagã (lit. “grega”, não de raça, pois era siro-fenícia, mas de cultura; cf. Jo 7,35; At 16,1). O relato supõe que a fama de Jesus tenha ultrapassado as fronteiras chegando até Tiro e Sidônia (3,8). Por outro lado, observamos que o poder de demônios tampouco respeita fronteiras. Na verdade, a conceito de demônios como causa de doenças é típico do helenismo (cultura grega). No Antigo Israel, se falava muito menos de demônios (no AT: Lv 16,8.10; 17,7; 2Cr 11,15; Sl 106,36; Is 13,21; 34,14; cf. a doença psíquica do rei Saul em 1Sm 16,14-16.23; 18,10; 19,9) do que no Novo Testamento (NT) escrito em grego.

Jesus disse: “Deixa primeiro que os filhos fiquem saciados, porque não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos.” A mulher respondeu: “É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem as migalhas que as crianças deixam cair” (vv. 27-28).

A resposta de Jesus só se pode entender dentro do (pré-)conceito dos judeus: Os “filhos” são os israelitas (cf. Ex 4,22; Os 11,1). A eles se serve “primeiro” (esta palavra é omitida por Mt 15,26 e sugere que o Evangelho passará dos judeus aos gregos; cf. Rm 1,16) e a comida melhor (cf. a preferência dos judeus na história da salvação em Mt 10,5s; Jo 4,22; Rm 9,4s). O que resta é para os cães criados em casa. Nesta comparação, “cães” designa os pagãos, mas não era metáfora tal comum (cf. Mt 7,6).

A mulher aceita a comparação, nem tanto por humildade, mas porque assim resta alguma coisa para ela. Ela pode insistir no seu pedido, porque até os cães recebem comida. É certo que Elias proveu de sustento a mulher fenícia enquanto seus concidadãos de Israel passavam fome (cf. Lc 4,25s); depois ressuscitou o filho da viúva (1Rs 17,9-24). Quem deu de comer a cinco mil homens em Israel (cf. 6,30-44p) não terá pão também para uma pagã infeliz? Neste contexto, se pré-anuncia a admissão dos pagãos à refeição do Senhor (notar as menções do pão em 6,41.52; 7,2; 8,6.14-21).

Então Jesus disse: “Por causa do que acabas de dizer, podes voltar para casa. O demônio já saiu de tua filha.” Ela voltou para casa e encontrou sua filha deitada na cama, pois o demônio já havia saído dela (vv. 29-30).

Temos aqui a primeira cura à distância em Mc, e só através da palavra de fé da mulher (mas com a autoridade de Jesus). Em Mt 15,28, Jesus qualifica a atitude e as palavras dela como “fé grande”. Por causa desta fé, a filha pode sarar, se acalmar (“deitada na cama, pois o demônio já havia saído dela”, cf. 1,26; 5,15; 9,26).

A fé inclui curas concretas, até à distância. O final aqui assemelha-se da cura do filho/servo do centurião romano, outro pagão (Mt 8,13p), e como esta, é sinal para entender a história da salvação após a ressurreição. Jesus não confina a ação de Deus nos limites de Israel, mas deixa-se tocar pela fé de uma mulher pagã. Os pagãos serão salvos a distância, não pelo encontro direto com Jesus, mas pela palavra (dos apóstolos que os evangelizam). Paulo chama isso de “mistério” (cf. Rm 11,25; 16,25s; 1Cor 2,7; Ef 3,3-6; Cl 1,26s).

A luz do resultado vê-se que a ocultação de Jesus (v. 24) servia para dar relevo a irradiação e a distância dos pagãos. A preferência de Israel é cronológica (“primeira”) e a riqueza do Messias não está circunscrita; a comunidade de Marcos já a experimenta. A abertura de Jesus nos incentiva a procurarmos novos relacionamentos e áreas de atuação. Incentiva o ecumenismo (não confundir com sincretismo), ou seja, reconhecer certa fé em outras religiões também e promover o diálogo inter-religioso (cf. os documentos do Concílio Vaticano II: UR, NA).

O site da CNBB comenta: Existem pessoas que acreditam que somente quem pertence à sua religião ou mesmo apenas ao seu movimento religioso ou espiritualidade será salvo. Essas pessoas esquecem que Jesus veio ao mundo para que o mundo fosse salvo por ele, e não somente os daquela religião ou daquela forma de espiritualidade. Essas pessoas acabam por fazer do próprio Deus propriedade delas e querem que Deus aja segundo os seus critérios. A ação divina depende da vontade divina, que quer o bem e a salvação para todas as pessoas, de todos os povos, de todos os credos, línguas, etc., pois verdadeiramente Deus não faz distinção de pessoas.

 

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